Avoriaz
Não sei quem sou. Não sei se me escutam. Não sei se faço barulho ou se podem entender meus pensamentos ou minhas palavras, ou o que entendo o que deva ser.
Tudo o que vejo é uma bonita paisagem.
O sol nasce na minha frente. Quando vai embora, está às minhas costas. Às vezes o tempo é muito lento. Outras vezes sinto apenas a velocidade das nuvens acima de mim.
À minha frente, meninos jogam bola :
- Caiu ! Caiu a bola lá dentro !
- Quem vai pegar ? Quem vai pegar ?
Silenciosamente imagino: venha pegar, venha pegar. Venha logo. Quanto mais tarde, mais escuro. Venha !
Brigas. Brigas. Vá você ! Não, é você quem vai ! Empurrões. Finalmente um menino mais corajoso, faz cara de sério e finalmente decide :
- Eu vou !
Passam-se minutos. Meia hora. Uma hora. Gritam seu nome. Xingam. Fazem troça. Mariquinha, mariquinha. Com o passar do tempo, entreolham-se. Já não fazem o mesmo barulho. Na realidade, fazem silêncio. Outro mais corajoso, anima-se a ir buscá-lo.
- Não vá ! Não vá !
Avança alguns passos, cego pelo contraste entre a luz do sol e o escuro. De repente, muda de idéia, vira as costas para mim, e fala para o grupo:
- Vamos buscar ajuda !
E vão embora, camisetas sujas, pernas,braços e joelhos arranhados. As nuvens passam. O silêncio fica maior.
Às vezes seria possível ouvir o vento conversando, alguns de seus passageiros.
Anoitece. Amanhece de novo. Anoitece de novo. Sol. Sol e noite. De novo e de novo.
Um ônibus, excursão, turistas. Descem todos para aproveitar a paisagem. Homens, mulheres, filhos, filhas. Uma menina de uns dez meses, engatinhando. Tem cabelos claros que refletem o sol, tem olhos cor de azeitona verde, que investigam o mundo. Estendem uma toalha no relvado, comida, bebida, conversas. Ela brinca com as flores, persegue formigas.
Oh, meu adorável bebê. Venha aqui comigo. Deixem vir as crianças. Não as impeçam. Aqui esse lugar é de quem se parece com as crianças (1)
Uma voz inaudível é ouvida, o bebê desaparece na sombra.
Os homens e as mulheres, e suas crianças recolhem suas bagagens. Máquinas fotográficas, sacolas de lanches. O ônibus arranca.
Passam as nuvens. Na sombra, a paisagem ouve o bebê chorar.
Silêncio.
Pelo campo, pela paisagem, o casal corre. De mãos dadas, abraços, beijos. Rolam no chão. Risadas, gargalhadas. Levantam-se. Ela o empurra e começa a correr.
- Morrerias por mim ?
Morreria sim, claro que morreria, eu penso em silêncio.
Não posso rir. Á primeira menção de uma risada, os pássaros eventuais levantariam vôo. E eu seria denunciado.
Apenas observo suas faces afogueadas, o riso, a respiração arfante, hormônios.
Rindo, rindo muito, ela dispara por caminhos invisíveis. Finalmente entra na sombra.
- Venha me pegar !
Ele sorri. E desaparece na sombra.
Quem eu sou ? Não sei quem sou. Não faço a mínima idéia.
À minha frente está a paisagem, acima de mim as nuvens, dentro de mim vozes, sussurros, zunidos.
O tempo irá passar, as noites virão, os dias irão aparecer no horizonte. Companhia mais constante : o silêncio. Acima das nuvens, acima do céu, do sol que nasce à minha frente e morre, trás de mim. Acima das vozes que me povoam, da luz e de sua sombra.
Talvez não seja, talvez exista.
Talvez não me reconheça se um dia pudesse olhar o que imagino minha face refletida em qualquer espelho dágua.
Estou apenas esperando.
(1) Lucas 18,15-17
Shapes of Things
Shapes of things before my eyes,
Just teach me to despise.
Will time make men more wise?
Here within my lonely frame,
My eyes just hurt my brain.
But will it seem the same?
Come tomorrow, will I be older?
Come tomorrow, may be a soldier.
Come tomorrow, may I be bolder than today?
Now the trees are almost green.
But will they still be seen?
When time and tide have been.
Fall into your passing hands.
Please don’t destroy these lands.
Don’t make them desert sands.
Chorus, Lead.
Soon I hope that I will find,
Thoughts deep within my mind.
That won’t disgrace my kind.
(escrito por JimMcCarthy,Keith Relf e Chris Dreja. Yardbirds. 1965)
Quinta-Feira, 7:12 da manhã
Eu vinha vindo
pela rua fria
Trazendo minha filha
pela mão.
A parte
mais triste
de mim
estava dizendo:
presente.
“Cale-se”,
digo em silêncio.
“Por favor,
não se manifeste”,
exijo
em brados
silenciosos.
Minha filha
afrouxa sua mão
ligada à minha,
pois vamos
de mãos dadas.
Percebo então
que a parte
mais triste
de minha filha
também
estava dizendo :
presente.
Senti, sinto,
medo,
muito medo,
como nunca.
Quem sabe,
fingir
que nada está acontecendo.
Hora de
atravessar
a
rua.
Memory is Near
O homem preparou-se para o mergulho,
pompa e circunstância,
preto e branco.
E tanto fôlego tomou,
tanta coragem,
esperava um oceano
profundo.
Preparou-se para um salto colossal,
E quando saltou,
a câmera mostra:
Metade do corpo imersa na água,
as pernas para fora,
mexendo, desordenadas, anárquicas,
querendo mergulhar.
A platéia ri,
o piano toca :
cinema mudo.
(outubro,2009)
Agradecimentos : Marcos Nogueira
Música Mental : Memory is Near, Steve Roach
The Magnificent Void
Durante muitos anos, ela
manteve sua lembrança. Desnecessário.
Grades que crescem enjaulando,
Aquelas que nos protegem de nós mesmos, aquelas que nos fazem sentir incomodamente seguros.
Talvez nunca houvesse de fato precisado da lembrança,
Talvez sempre tivesse contado a si própria
A mentira que por um tempo foi verdade.
Então um dia,
a lembrança nunca mais foi vista,
a lembrança nunca esteve lá. Jamais existiu.
Então apagou o nome da lembrança de seu livro,
Era dia de Aniversário,
Feliz Aniversário.
(O ministério Novasimpressões adverte : cada um em seu feudo. Obrigado Steve Roach)
Gate 9
Então é assim que termina : as nuvens vão ficar chumbo, os carros vão parar na estrada. Os guardas rodoviários armam barricadas, param tudo, mandam os carros passar. Estamos parados para vê-los mandar a todos nós passar. Segundo eles, a estrada agora está livre; juro que não acredito. Muitas noites interrompidas provocam sono. Tento abrir os olhos, ligar o rádio do carro, impossível ouvir mais do que dois minutos. Assim vamos atravessando a estrada, assim vamos chegando sem ver a hora de partir. Então é assim que termina : não com um tiro no peito, mas com a revelação daquele que nos cria. Agora sabemos o nome daquele que nos cria : se sabemos o nome, somos iguais, extamente iguais à aquele que nos cria. É assim que termina : tomamos nossos lugares nas mesas do escritório, preparamo-nos para começar e adormecemos. Longos minutos. O silêncio, encoberto pelo barulho dos dedos no teclado do computador. Silêncio, carros passando na rua – é assim que termina. Com um sentimento de culpa abrimos os olhos, disfarçamos, sob o olhar indiferente do gerente. Saímos, atraídos pelo verde, pela rua movimentada e seu silêncio implícito. Vamos andando até o parque, portão nove – o parque está cheio, muito cheio de gente a essa hora da manhã de uma sexta feira, nem é feriado mas o parque está cheio. Cheio de gente, estamos agora de mãos dadas. É assim que termina : vejo pela última vez teu sorriso, nunca mais te vejo. Vou parando à sombra de uma grande árvore, ouço os ruídos, os patins, os skates, as bicicletas, os cães de nomes exóticos. Nunca mais te vejo, vou fechando os olhos. A cada segundo esqueço, vou ficando cada vez com mais sono. Entramos pelo portão 9, não importa tanto que estejas aqui do meu lado. Importa que estão todos aqui, aqueles que já passaram e vamos passar todos juntos de novo. Acho que vou dormir agora, quero que estejas do meu lado. Então apagamos todas as diferenças e tudo nasceu novamente, tudo nasceu mais colorido, tudo nasceu mais forte, tudo nasceu mais tranquilo : quando eu acordar vou acordar com teu sorriso um sorriso muito branco como são brancas as estrelas no céu a noite, as estrelas que agora podemos pegar nas mãos porque todos já sabemos o nome daquele que nos cria, porque somos aquele que nos cria e já sabemos de tudo, do passado e do presente, mas para frente não sei se sabemos, porque é assim que termina.
On the same day
Quer dizer então, que enquanto esperava inocente as flores caindo das árvores, era apunhalado por ti pelas costas ? Necessitava fazê-lo. Suma importância. Caso de Segurança Nacional. Quer dizer então que todo o sentimento foi em vão ? Meu amigo (não, por favor, não me chame de ‘meu amigo’), as coisas se dividem oportunas entre coisas ‘que interessam’ e coisas ‘que não interessam’. As coisas interessam um dia, e no outro não. Não adianta fingir que não o sabes. Tu sabes tão bem quanto eu. Quer dizer então que o tempo de espera foi perdido ? O problema não é meu, se perdeste tempo. É problema teu. Mas tu dissestes que um dia a Primavera chegaria, e que nela seríamos felizes. Eu disse isso ? Eu não disse nada. Ouves o que quiser. Mas não tens como provar. Mas tu me fizestes tão mal ! Não, não fiz mal a ninguém. Tu é que fizestes mal a ti mesmo. Tu te fazes mal. Tu és a encarnação ou encadernação do Mal. Quer dizer então que aquelas amizades, que julgava tão sinceras e tão devotadas não eram minhas, mas tuas, como foram tuas sempre ? Sim, foram e são minhas. Eu comando a todos com as mãos. Um gesto meu e posso fazê-los pensar todos que são a Rainha da Inglaterra, ou que tu és o inimigo que deve ser batido. E tu és o inimigo. Mas não devo dizê-lo. Sempre foste o inimigo. Quer dizer então que abandonaste aqueles que dependem de nós em nome dos teus dias frívolos, de tuas tardes ociosas, de tuas manifestações que somente tu podes entender ? Sim. Eles precisam ficar sozinhos. Um dia vão ficar sozinhos como tu. Já podem ir se acostumando. Mas não pensas que sofrem ? E daí ? Alguém reclama a ti por ter sido abandonado ? Não. Mas não sei se não reclama pela mordaça que amarras em cada um. Persistirá essa dúvida eterna. Meu estômago dói. Inútil continuar a conversa, são previsíveis todos os argumentos. São perversos. Mas não adianta nada dizê-lo. Eu me retiro triste. Faço meia-volta e vou embora. Vou ouvindo na distância : por isso vim para te curar, para cravar a faca no teu peito ou nas tuas costas, para eliminar tua raça, tua espécie da face desse planeta. Percebo que ainda vai chegar o dia onde não fará diferença ouvir esses impropérios. Ainda que chegar o dia, impossível. A faca está cravada, nas costas por toda a Eternidade. O Amor pode ser o bálsamo que regenera suas próprias feridas. Por enquanto, melhor não ouvir nada. Na rua escura, do outro lado, não vejo olhos, não vejo boca, não vejo pernas ou mãos : vejo um sorriso. Um sorriso.
Pausa
Escrevi já há algum tempo, não obtive resposta.
Não há problema, o silêncio é a melhor resposta.
Meu telefone não é o mesmo, meu email empurra-te compulsório para a lixeira. Mandei dizer que não estou. Vai ver se estou lá na esquina. Inferno. Não poderei comparecer por força de compromissos assumidos posteriormente. Será um prazer apagar da memória esse sorriso imbecil, essa ostentação toda. Não hás de usar o telefone, tampouco de escrever uma linha, não hás de gastar nenhum neurônio,
O Tempo é curto, e às vezes tenho o prazer de esquecer que nos dias de ontem eu me lembraria da tua ausência.
No Sábado
Quero enxergar um pedaço da mudança, penso, enquanto os garçons carregam as travessas de comida fumegante para lá e para cá. Não é preciso enxergar a mudança inteira – basta intuir um pedaço só. À minha frente, ele me olha, tranquilo, saboreando cada gole de sua cerveja, de forma tão lenta que imagino como ela não há de aquecer. Com surpresa vejo seu silêncio, vejo a tarde de sábado fluir lenta e tranquila em meio a um céu cinzento que trás algumas saudades. Minha filha está ao meu lado. Ela olha, tranquilamente, a cena de nós dois conversando, em um tempo misturada entre ouvir a conversa, e seus desenhos de mil canetas coloridas de escola. Penso que daqui há pouco começarão as recriminações, as reprimendas, as condenações, as montanhas de juízos apriorísticos. Nada. Os próximos cinco minutos seguem tranquilos, imagino que passem outros cinco minutos iguais, suprema pretensão. Se ouvir mais uma mentira, se ouvir mais uma censura, sei lá do que sou capaz de fazer. Talvez puxar abruptamente minha pequena pela mão, vamos, está tarde. Sem retrucar. Sem dizer até logo. Mas não ouço nada, vemos os desenhos, estão lindos, você sabe desenhar muito bem, parabéns. Um dos desenhos inadvertidamente cai em cima de um pedaço úmido da mesa, a garota fica triste, vejo algumas primeiras lágrimas despontando, e ele diz : não tem problema. Está lindo ! Tens um caderno fácil aí ? Ela tira um grande caderno da bolsa de material escolar e o oferece a ele. Ele coloca o desenho entre duas páginas quaisquer : deixa secar e daqui há pouco verás como está perfeito. Ela guarda o caderno com o desenho dentro da bolsa e logo parte para outro desenho. Assim a tarde continua e não, nada ouvimos, vem o café e nos levantamos, vamos até a porta. Aperto de mão, beijos na garota. Então nos separamos, eu sei que é para sempre, dessa vez eu sei que é para sempre. O céu é cinza, vai chover daqui há pouco, essas coisas são assim, quanto menos a gente espera a chuva pode cair, faz parte dessas coisas, essas coisas que nunca mudam.
Sailing the Boat of Silver Light
Sailing the boat of silver light,
The moon-beauty is fast approaching me.
The sky is vibrating with sweet and melodious songs.
The birds are flying beyond the horizon
To an unknown land.
All my hopes are flying without any destination.
Slowly my life’s evening sets in.
Sri Chinmoy