Arquivos Mensais: fevereiro 2008

Duke

Sempre iria acontecer como em um pesadelo, andar 365 passos e mesmo as pernas, os pés mergulados na terra no ar no mar fazendo uma viagem, escutando multidões ao caminho do encontro em um lugar seguro, andar por ele com a certeza que todas as estações do ano já pasaram, e se tem saudades de Jimi Hendrix ou Janis Joplin, e ainda perseguindo trezentos e sessenta e cinco, sem ponto nem vírgula a pasos irregulares, caminha e prossegue até o ponto de encontro, uma ilha tão pequena num ponto, tão cercado de terra por todos os lados até o ponto em que a terra e o mar vão coincidir em uma fronteira como a praia e uma ilha tão pequena num ponto, cercado de terra por todos os lados até o ponto que a terra e o mar cão coincidir numa fronteira como a praia e uma ilha tão pequena, como outras ilhas em outros oceanos , mas só ilhas e um oceano, e chegar à ilha e beijar a terra areia e sair com a boca cheia de areia e chegar até a terra, com um bastão dividir a ilha em duas metades e proclamar a linha que divide a ilha como linha internacional da data; acontecer duas partes distintas da linha, o hoje e o amanhã, instituidos no dia de hoje.

Haverá um milagre geométrico, como duas metades exatamente iguais, ficar andando atravessando a linha que divide o tempo a linha a ilha em hoje e o amanhã, o amanhã e o hoje, ficar andando do hoje para o amanhã e ao contrário, decide-se a verdade formando no rosto rugas de preocupação e um gosto sanguíneo aparecendo na língua, no céu da boca, tremor nas duas faces, na geometria do oceano passam navios, três em caravana, um dia quente de 31 de Dezembro e se caminha do hoje para o amanhã com felicidade, árvores com frutos nessa ilha, lado a lado caminha-se fumando um cigarro e deixando a fumaça soprada confundir-se com um ente confuso e macio chamado nuvem, andar controlando o tempo que vai passar e está estabelecido o amanhã e o hoje.

Não que permaneçam : o tempo passa, os nomes do tempo vão ficando e nenhum vento ou mão humana apaga a linha que divide tanto o calor do sol irradiado queimando o tempo e o sol não deixa enxergar mais nada, o estado estar cansado deixando o corpo ajoelhar embaixo duma árvore que tem copa alta e agasalhando tanta sombra, sonata ao calor tocada provávelmente por Karl Richter, os olhos tela de cinema technicolor vão se fechando, vai se adormecendo até que o silêncio entre nos ouvidos oceano invadindo praias no cérebro,

Acordar na aurora. Dormiu-se, e agora, matizes do mesmo sol reavivam o ajuste da mente. Dormiu-se no lado do amanhã, quando acordar o sol é todo um ponto lá no longe, querendo ter um brilho, e é querer voltar para o hoje, defender o hoje, procriar o hoje, correr ultrapassando a linha de chegada, a linha internacional da data como linha de chegada da corrida, vamos ainda tentar defender o hoje, as árvores do hoje, silêncio e barulho dos animais esquisitos do hoje, a terra da areia do hoje e amanhã não é um desespero mas não se sabe, porém deveria, talvez porque o sono dormido foi bonito e tranquilo e agora acordar e o sol crescendo, cresendo tanto até o fim, formando-se o amanhã em hoje, dia velho, e não se pode parar o sol e agora olhar para o fim de tudo, transormando o hoje em amanhã e depois de amanhã contínuamente, porque para os gregos o dia começa nas bordas da aurora e só contam as horas na justa hora em que o sol nasce.

São Paulo, 1979

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Prólogo

Em 1979, eu era um estudante relapso de Engenharia que matava as aulas para trabalhar voluntáriamente como bibliotecário no Centro Acadêmico da minha escola. Nas férias do meio daquele ano, escrevi seis contos curtos que decidi publicar em edição “feita em casa”, com o nome de “Aparece um Vampiro”. Vendeu exatos 225 exemplares (a tiragem inteira) – sequer vi a cor do dinheiro, o resultado da venda foi todo para pagar a gráfica – e me deixou com a satisfação lá em cima. Tinha um sistema personalizado de capas – os exemplares vinham com as capas em branco, e na hora de vender, eu entregava aos compradores uma almofada de tinta e dois carimbos (um com meu nome e outro com o nome do livro), para que eles fizessem suas próprias capas, pesoais e intransferíveis. Surgiram idéias interessantíssimas. Fiquei a partir daí, incendiado pelo ato de escrever. Esse momento foi muito forte, importante.

Em 2008, a um retorno de Saturno além daquela data, achei que para começar o ano deveria trazer alguma coisa efetivamente nova para o leitor. Pode parecer estranho, mas fui buscar o novo no antigo, que achei um dia, organizando papéis e coisas sem data nesse escritório. Não tive tanta saudade dquele tempo, mas achei paradoxal que a procura de algumas afirmações filosóficas sobre o que é Tempo começasse daí. O que é Tempo e quem somos nós, moradores de ilhas solitárias onde arbitramos o Amanhã e o Hoje. Acho que é isso que aquele menino estava pensando quando escreveu. E aquele menino sou eu. Espero que vocês gostem. Abraços.