Arquivos Mensais: março 2008

O Monstro

Fumaça saindo do bule, café quente. Silêncio.
Onde estão todos ? Todos estão dormindo ? Foram passear ? onde terão ido ?

Acho um bilhete em cima da mesa da sala de jantar.

Você gritou e rosnou a noite inteira, os meninos estão assustados.  Saímos para ver se eles se distraem um pouco. Até mais.

Ouço nítido o motor da geladeira batendo contra o silêncio dessa manhã. Sinceramente, não consigo lembrar-me de nada. A única coisa de que me lembro é um sonho, entrava na casa de um amigo, vinham receber-me o amigo, um cão labrador e um tigre de pelúcia. O tigre transformava-se então em um tigre de verdade. Pulava sobre mim, brincalhão como um filhote que vem lamber e saudar seu dono.

E eu reclamava, ora, onde já se viu : um tigre, um tigre pode morder, esfacelar, matar alguém. Onde já se viu um tigre, animal de estimação ? Ficava bravo, muito bravo, com o dono. E acordava.

“Gritou e rosnou… a noite inteira !”

Então eu devia ter acordado, sufocado pela angústia do tigre e dos meus gritos, dos meus rosnados.

As horas passam. Está ficando tarde. Depois anoitece. Não voltaram ainda para casa.

Os trabalhos domésticos.
O banho frio.
Os telejornais diários ( a mesma monotonia, as mesmas notícias). Os programas de esporte. Os donos da verdade.

Porque não voltaram ainda para casa ? Será que aconteceu alguma coisa ? Adormeço, televisão ligada.

Às três da manhã acordo e desligo a televisão. Fechei os olhos, voltei a dormir.

Acordo cedo. A máquina de lavar funciona, solitária como eu.

Não estão em casa. Novo bilhete na mesa de café já posta.

“Por favor, controle-se, os meninos estão com muito medo. Não só os meninos, eu também. Você nos encurralou no quarto, puxou uma faca, ficamos morrendo de medo. Temos muito medo de você. Acalme-se, por favor.”

Continuo não entendendo nada. Então, como o Dr. Jekyll da história, empurrei minha mulher e filhos para um quarto, e me coloquei a ameaçá-los, como se fossem bandidos inimigos.

Não me lembro de nada.

Tento imaginar a cena. Mas não me lembro de nada.

Choro. Meus filhos. O que fiz a vocês ?

Os dias passam. Ensolarados. Quanto maior o Sol, maior a dor. Juro que tento me lembrar do que fiz. Mas à noite, mal consigo desligar a televisão, o sono é muito grande.

E se eu ficasse acordado à noite ?

E se eu ficasse acordado para ver o monstro em que me transformo acordar e ameaçar covardemente quem não pode dele se defender ?

E se eu ficasse acordado para combater esse monstro terrível ? Ótima idéia, ótima idéia ! Mulher e filhos poderiam voltar, e viveríamos felizes.  Então mãos a obra :

As balas de alcaçuz, terríveis, apimentadas.
O café , na garrafa térmica, horrível, requentado.
Uma coca-cola.
Um jogo de futebol.
As mulheres que se despem em poses lascivas, à meia-noite.

Às três da manhã, vitorioso mudo de canal até encontrar uma orquestra filarmônica, que toca um concerto muito solene.

O monstro é demorado ! Essa hora da madrugada e ainda não apareceu !

A transmissão estava horrível. Os arcos de violino, viola e violoncelo ficaram todos suspensos no ar, enquanto o acorde final tocava.

Fechei os olhos.

Quando os abri, era um outro dia.

A mesa do café estava posta, imaculadamente preparada. Não havia café. Tinha que fazer. Vi o bilhete primeiro :

“Por favor, trate-se, vá ao médico, se não puder ser por você, vá por mim, pelas crianças. Precisamos ficar juntos, mas nós três sentimos muito medo de você. Nunca poderemos ficar juntos se esse medo não acabar. Por favor.”

Decidi consultar um médico.

– Doutor, o senhor acha mesmo que eu posso virar um monstro e aterrorizar minha esposa e filhos ?

– Não sei, meu filho, não sei. Não deixe de tomar seus remédios. Coisas terríveis costumam acontecer a quem não toma os remédios !

Deu-me pílulas, em vidro de amostra grátis, após quinze minutos de consulta, pílulas que deveria tomar todos os dias antes de dormir.

Chego em casa, abro o vidro de comprimidos, derrubo no vaso sanitário, dou descarga. Jogo o vidro fora.

Vou ficar acordado, essa noite, a noite inteira.

Sem ligar a televisão, sem ligar o rádio, sem fazer qualquer coisa, a não ser,

Esperar o monstro que vem e que mata minha mulher, que mata meus filhos, que vai me matando aos poucos, lentamente, como se cai dentro de um sono, como se sai de dentro de um sonho.

Inútil : o cansaço venceu-me por um placar dilatado.

Acordo, e é outra manhã.

O bilhete já me aguarda, mesa do café.

Tivemos muita paciência. Um dia ela acabou. Cansamos. Estamos indo embora para sempre. Fique sozinho, você será eternamente responsável pelo nosso infortúnio. Nunca esqueceremos. Jamais perdoaremos. Adeus.

Ouvi algumas vozes, vindas da calçada.

Subi e escondi-me atrás da janela. Vi minha mulher pela última vez, olhos atrás de óculos escuros. Falava  bem  baixo ao telefone, olhava em todas as direções, como se estivesse sendo vigiada. Os meninos tinham um um braço enfaixado, o outro, a perna direita engessada. Moviam-se com surpreendente agilidade, carregando malas de mão na direção de um táxi,  que os esperava na esquina de casa.Podia dizer até que estavam quase correndo. Entraram todos. Foi a última vez que os vi.

Naquele dia, chorei. Cada minuto. Lembrei-me do tempo em que nos conhecemos. Do casamento, dos primeiros tempos de casado. Do nascimento dos meninos. De nossa vida simples. Das férias na praia e na montanha. Das brigas, dos momentos bons. Tudo foi virando a fita de um filme, passando sem parar desenrolando um carretel interminável.

Adeus, adeus. Não tornarei a vê-los. Mas ainda quero ver o monstro.

Os passos apressados de um filho com a perna engessada. Meu Deus, que significa isso ?

Deixei meu corpo derrubar-se na cama. Tapei os olhos, em  desespero. Fechei os olhos. Quisera não mais tê-los aberto. Espero a Polícia chegar. Enquanto não chega pergunto-me se o melhor é uma cadeira elétrica, forca ou fuzilamento. Cadê esse monstro, que nunca  aparece ? Covarde esse monstro !  Fecho os olhos e vejo meu filho correr. Como corre esse filho mais novo, todo enfaixado que parece que ter quebrado ! Com os olhos fechados vejo meu filho correr. Corre, corre meu filho ! Seja feliz !

Acordei assustado, casa toda às escuras. Devo ter tido sonhos bons. O problema é esse ; no segundo segundo, tenho que acostumar-me à idéia que já não tenho família. Foram embora todos, fugindo do monstro, fugindo de mim. E aí começa a doer, sabe como é ? É uma dor  funda, lá dentro do peito  como se eu tivesse tendo um infarto ou começando a ter um. Quando ouço o barulho da geladeira funcionando, já sei dessa história. Dói desesperadamente. Acho que devo tomar um banho.  Não me peçam para esquecer de nada. De repente toca a campainha. Algúém está lá em baixo, á espera. A porta. Vou atendê-la.

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Knots

All in all each man in all men
All men in each man.
He can see she can’t, she can see
she can
see whatever, whatever.
You may know what I don’t know,
but not that
I don’t know it and I can’t tell you
so you will.

To tell me all man in all men
All men in each man.
He can see she can’t, she can see
she can
see whatever, whatever.
You may know what I don’t know,
but not that
I don’t know it and I can’t tell you
so you will have to tell me all.

It hurts him to think that she is
hurting her by him being hurt to think
that she thinks he is hurt by making her
feel guilty at hurting him by her thinking
she wants him to want her. Her wants
her to
want him to get him to want him to get
him to want her she pretends.

He tries to make her afraid by not
being afraid. (permutations)

You may know what I don’t know, but not
that I don’t know it and I can’t
tell you so you will have to tell
me all.

I get what I deserve. I deserve what I
get. I have it so I deserve it. I deserve
it for I have it. I get what I deserve.
What I deserve – what I deserve what
I get.
I have it so I deserve.

He tries to make her afraid by not
being afraid.

R.D.Laing, “Knots”, 1969