Arquivos Mensais: agosto 2008

A Nave Infeliz

O começo do sono prometia-se muito agradável : após a hora do jantar as crianças e a senhora iriam para o andar de cima, planos para o próximo dia; ele recolheria a louça suja, colocando-a na máquina de lavar e prepararia a mesa do café da próxima manhã. Ouviria a risada, músicas tocando, ordens e brigas de irmãos flutuando no segundo andar : preocupação da senhora com o horário de dormir. Automatico ele deixaria cada jogo americano de mesa posto de forma milimétrica : prato, caneca, faca, colher. Duraria segundos essa tarefa; enquanto isso, passos leves calçados em pantufas descendo delicados os degraus da escada : invariavelmente já prontos para dormir, um par de olhos doces e inquietos trazendo livros ou folhas de papel com rabiscos e garatujas – “por favor, conte uma história”. Oh meu Deus : hora de dormir e esse pirralho sempre pede uma história. Então eles iriam para a sala de estar, onde uma grande janela deixava entrar o céu, nem sempre estrelado, mas imenso e escuro. Sob esse céu, ele inventava relatos de viagens interrompidas por falhas mecânicas, grandes jogos de futebol, papagaios que sabiam recitar poesia, o que a imaginação permitisse. Nas primeiras vezes que o menino descia as escadas, contava histórias até que ele pegasse no sono. Seus braços automáticos tomariam o menino, que se aninharia em seu colo, muitas vezes subindo as escadas em direção ao quarto de repouso com a cabeça delicadamente apoiada em seu ombro. A mãe os receberia com um sorriso. Ele entregaria o menino nos braços da mãe, e essa lhe diria : “obrigado, boa noite, até amanhã”. Então ele iria para seu quarto de repouso, e, de pé, como estava, apertaria o botão de desligar. Já estava programado para todos os dias, à mesma hora, abrir os olhos e ligar-se incondicionalmente. Mas não era mais assim. Ele diria ao menino : “que história quer ouvir hoje ?” e o menino iria responder. Em seu inconsciente eletrônico, ele rezaria silenciosamente pedindo pequenos milagres, e enquanto isso o menino ou dispersava em desenhos próprios ou fazia perguntas e perguntas. Perceberia então que seus próprios olhos estavam ficando pesados; as palavras da história eram fardos pesados ; nesse momento a mãe desceria as escadas irritada e tomaria o menino de sua convivência : “vamos, venha dormir”. Subiriam em passos irritados e ele levantar-se-ia, pronto como um soldado, e completamente constrangido. Ouve então a porta do quarto de repouso bater e trancar. Dirige-se ao seu próprio quarto de repouso, vai devagar, apaga as luzes, fecha os olhos. O sono era tanto, esqueceu-se de desligar a si mesmo. Um segundo antes de mergulhar, pensou que a eternidade anterior tinha sido um pouco melhor do que a presente. Agora estava deitado em uma cama, dormindo, sonhando, e quando o relógio marcar duas e cinquenta da manhã ele vai acordar de seu sonho feliz, acordar assustado, lembrar da expressão dura e irritada da mãe, talvez ela pense que algumas máquinas não tem mais conserto possível, talvez ele seja um monte ambulante de sucata ambulante : daqui há pouco a mãe compra um desses novos, alguém para colocar no meu lugar, tentar dormir de novo esquecendo-se novamente de desligar; não se consegue; certas coisas inevitáveis, como o céu escuro que daqui há pouco vai mudar de cor e de posição. Independente da direção da viagem, o fato é que essa nave não está sendo uma nave feliz.


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