Arquivos Mensais: maio 2009

Poema de Aniversário

Estou velho,
já fiz aniversários,
não conto mais.

Desapareço por entre as nuvens.
Não me lembro de nada,
nem o sono,
nem a insônia.

Não há alegria
nem tristeza,
apenas constatações,
frias como estrelas

Não sei se foi um sonho,
não sei se estou acordado. Não me pergunte.
Eu sou uma sombra que desimpregnou da calçada
e que anda por essa fria cidade.

Feliz aniversário,
feliz aniversário, 
lembro que preciso escrever.

O melhor presente lhe desejo,
não é a flor que fotografei na montanha,
nem a palavra que nasceu da água e das pedras.

O melhor presente lhe desejo,
enquanto vamos nos esquecendo,
é a memória,
a única coisa eterna,
talvez a única coisa,
que pode sobreviver de todos nós.

A memória, lembre-se, a memória :
E divirta-se.
Ainda há tempo,
ainda há muito tempo.

 

à querida amiga Maria Rojanski, de Macapá-AP,
que faz aniversário hoje.

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Lembrem-se do Mágico

Somewhere over the rainbow
Way up high,
There’s a land that I heard of
Once in a lullaby.

Somewhere over the rainbow
Skies are blue,
And the dreams that you dare to dream
Really do come true.

Someday I’ll wish upon a star
And wake up where the clouds are far
Behind me.
Where troubles melt like lemon drops
Away above the chimney tops
That’s where you’ll find me.

Somewhere over the rainbow
Bluebirds fly.
Birds fly over the rainbow.
Why then, oh why can’t I?

If happy little bluebirds fly
Beyond the rainbow
Why, oh why can’t I?

Harold Arlen & E.Y. Harburg.  O Mágico de Oz, 1939

Circus

De fato, é um Circo de Pulgas, e todos os artistas foram um a um por mim recrutados . Entrevistei pessoalmente, e confesso, senti dificuldades em ouvi-los. Também senti dificuldades em mantê-los presos, tamanha era a vontade de que tinham de se associar a cachorros e outros animais peludos. Finalmente compreenderam meus argumentos e começaram rapidamente a me obedecer. Com o tempo, já estavam acostumados à minha presença e foi um custo evitar suas manifestações de afeto : queriam abraçar-me e beijar também. Impossível. Seria um suicídio. Tinha que falar sussurrando, tinha que me afastar bons cinco metros de distância. Construi um trapézio, uma roda gigante. Construi também um veículo baseado em um carretel de madeira, com palitos de fósforo, elástico, e um engenhoso motor-engrenagem feito com um cubinho de sabão de lavar roupa. Tentei com um pedaço de queijo provolone, mas percebi que os artistas achavam-no malcheiroso. É difícil ouvir o que nossos artistas tem a dizer. Acredito que estejam satisfeitos. Um dia achei em uma lata de lixo um ursinho de pelúcia,encardido, ensebado que trouxe para minha casa. Lavei-o no tanque, deixei-o secar ao sol. Virou a casa dos artistas, virou hotel de luxo, cinco estrelas, de onde as estrelas saem para seus shows, e para onde voltam, merecido repouso. As pulgas pulam, voam nos trapézios, saltos-mortais triplos, quadruplos, ricocheteiam no chão, caem de pé. E que arte, que arte, senhores ! Ilumino o picadeiro com a luz de velas , que cuido para não chegar tão perto assim do chão; nossos artistas poderiam queimar. A música sou eu quem faz, às vezes toco uma gaitinha, outras vezes faço uma fanfarra soprando em um pente coberto com papel-manteiga. Que beleza nossos artistas heróis ! Quando acaba a sessão e vão se recolher, vou para a rua, distribuir as filipetas que anunciam o espetáculo. Tanta gente encontro na rua, tanta gente cumprimento… recebo abraços, apertos calorosos de mão… seu Circo é um espetáculo de renome internacional, dizem-me. Quando as filipetas acabam, volto para a rua de onde vim, onde está meu palco. Agora faz frio, o vento sopra, início de inverno, tudo cor de grafite no céu. Vou olhando impaciente para meu relógio de pulso e para o urso de pelúcia, e quando olho para esse último, ah, nossos artistas sabem que é hora de aprontar-se. Em um minuto, já estão todos prontos. Olho para o relógio, olho para a frente do palco: ninguém. Vamos esperar mais um pouco, digo silenciosamente a meus comandados. Os minutos vão passando, ninguém chega. Meus queridos artistas olham-me impacientes : quando iremos começar ? Falta muito ? Um pouquinho mais, por favor, queridos, deixem que os espectadores parem, acomodem-se em seus lugares… minutos apenas e o silêncio, e ninguém. Percebo que agora não consigo mais esperar, que o vento sopra, que não há ninguém na rua. Percebo que se demorar mais, hão de cansar, hão de desistir, hão de fugir. Impossível esperar mais, impossível ficar parado : vamos, queridos, vamos começar. Respeitável Público,

Poema sobre Verdades, algumas inconvenientes

Eu ainda não disse bom dia,
Porque estou economizando –
se não disse bom dia hoje,
há uma possibilidade de dizê-lo amanhã,

Se houver amanhã.

Minha filha não usa mais a Internet,
pois segundo ela,
a eletricidade que liga os computadores vem da água,
e se ela não usa Internet,
Ela economiza água,
que será útil ao Planeta,
no dia de amanhã

Se houver amanhã.
(Mamãe ensinou-me assim)  (Recuso-me a acreditar)

See You Later

A chuva veio e os ventos. Não consigo mais ouvir o que dizes.

Sei que alguma coisa é dita, mas não consigo ler teus lábios. 
A chuva imprime caminhos na calçada, trilhas invisíveis que não consigo desenhar.

Ou acho que é o desejo do Vento.  Não ouço mais nada;

Eu deveria,
estar angustiado à essa hora, mas

Vejo-te mais tarde, mais tarde.

 

(to my dear friend M.)