Arquivos Mensais: junho 2009

Moonwalking

And mother always told me be careful of who you love
And be careful of what you do cause the lie becomes the truth

E minha mãe sempre me disse : cuidado com quem você ama,
e cuidado com o que você faz, pois a mentira vira verdade
“.

Billie Jean, escrita por

Michael Jackson (1958-2009)

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Caleidoscópio

Fiz uma rádio-chamada para a Terra, há alguns minutos atrás. É divertido pensar que aqui, na cabine de comando dessa nave, poderia haver um telefone público, desses que são movidos por moedas, pregado às paredes cheias de instrumentos. Chamei a base umas três, quatro vezes. Nada de resposta. Pensei que essa chamada, o pensamento ligado em uma voz anônima que atenderia minha ligação, já tinha acontecido. É como as estrelas que vejo da janela : estou olhando não mais para o que está acontecendo, mas para o que já aconteceu. A luz dessas estrelas, as que parecem fixas lá em cima. A luz de outras estrelas, que se movimentam mais rapidamente, tudo isso já aconteceu. Já é passado, e o momento do único vislumbre é o momento em que o presente que sinto viver toca o passado: parecem a mesma coisa, mas não são. Aqui no céu não existe acima ou abaixo, direita ou esquerda. Aliás, esquerda, direita, são mentiras que me invento quando o espaço vai passando nas janelas da nave, tudo é tão escuro, tudo é tão frio, congelado. Ajuda a não enlouquecer, se é que me entende.

Manter a nave em curso, tarefa do meu dia. Todos os dias acordar, cinco horas da manhã pelo horário de Greenwich, desisti secretamente de fazer as contas – que horas seriam em Dar-El-Salaam, São Francisco, Brasília ? Acordar os outros. Mas não há ‘outros’. A nave  é um grande refrigerador que viaja pelo Universo, fizeram-na simpática demais para ser um simples sarcófago. Quando a missão estiver cumprida (devo saber para o que estou trabalhando, para onde estou viajando daqui há duas semanas), daremos meia-volta, a nave há de se posicionar, e o faz movendo seu bico para um minúsculo ponto – ou abstração do que seria um ponto – deve ser o planeta Terra, tomarei comprimidos para dormir e quando acordar, estarei em uma unidade de terapia intensiva, sendo reanimado de uma quase morte por médicos e enfermeiras, que me olham assustado. Não ouvirei o ruído dos motores dando partida. Não há como sentir o empuxo suave das turbinas, mistura de usinas hidrelétricas com explosões atômicas. Ainda não chegou a hora, e a nave desliza suavemente, vejo estrelas azuis de um lado da cabine, estrelas amarelas do outro lado. Em alguns momentos sinto como se a nave fizesse movimentos de tuneau: rotação em torno do próprio eixo. Tudo é muito lento, quase imperceptível – vejo que estamos virando porque as estrelas mudam rapidamente de posição e invertem-se: quando estão do lado direito vão parar no esquerdo e assim por diante. Quando voltam à sua posição original sinto como um momento de graça, algo que presenciei e que realmente valeu a pena. As vezes esse fenômeno acontece várias vezes por dia, e na observação da quarta ou da quinta vez é provável que já esteja tonto, como se houvesse tomado uma garrafa de vinho sozinho, e fosse acordar no dia seguinte completamente esquecido do dia anterior. As cores mudam, muitas vezes sinto-me no meio de fogos de artifício. Perdi completamente a noção do tempo em que estou acordado: durmo com a persistência dessa visão de cores extasiantes, que mudam de lugar, de nebulosas claras que atraem a nave ; meu sono entrecortado é a continuação de um dia de observação.

Acordo com estática, é o rádio-telefone : ou uma peça de circuito está enguiçada , ou tentaram falar há muito tempo atrás comigo, hipóteses plausíveis. Desligo o alto-falante, o computador me mostra um corpo celeste lá na frente, algo que vejo com o telescópio, e parece um enorme olho. Um olho azulado fixo bem lá na frente e no fundo. Um buraco negro por onde a luz passa. O computador me diz que devo chegar lá  em dois dias, mantendo  o curso e a velocidade constante. Chegarei à frente do grande olho, que olha fixo para mim, sem saber se serei engolido ou se ele irá verter lágrimas, um absurdo em pleno espaço. Procuro minha máquina fotográfica e eu sei que ela está comigo, mas não consigo achar : quando olho para frente o olho não mais se encontra onde deveria. Tudo está parado. Agora é escuro, flutuamos no escuro. As estrelas desapareceram. Senti que despencamos em queda livre, mas os retrofoguetes da nave foram automaticamente acionados. Agora flutuamos, acho que ficou assim umas duas horas seguidas. Levantamos com um solavanco, agora parece que tudo estava andando, as estrelas  avançavam  por todas as direções do para-brisas da frente, o monitor do computador mostrava o olho azul. Não sei porque, o olho azul mudou para verde, de verde para azul de novo, e quando isso aconteceu pensei que jamais retornaria à minha casa, e que talvez até pudesse ouvir  as ordens da missão quando o computador repetir para mim em voz alta. Fiquei com certeza de que não mais retorno, quis fazer mais uma rádio-chamada. Inútil. Lá está o olho, tudo gira muito rápido, é como se estivesse sendo atraído para um ralo, para um buraco-negro, não é negro, é azul, estou preso à poltrona por todos os meus cintos de segurança, tudo gira e tudo é tão vertiginoso, acho que eu ouço agora um grito: não é um grito, é um rugido, algo muito grave que não pode ser, não pode existir, que não vem daqui  Como um dinossauro que não conheci gritando em um filme qualquer domingo à tarde, algo que tem a voz rouca, alterada, grave, câmera-lenta. Impossível, impossível, o som não se propaga no espaço, aprendi isso quando devia ter já uns nove anos, de repente parou e tudo ficou exatamente suspenso no ar, sou um náufrago em um oceano totalmente escuro: tudo está em silêncio, tudo está suspenso, tudo está queto, tudo vai ficar assim sem funcionar pelo resto da eternidade,  e eu não posso imaginar o final dessa manhã, a mãe, enérgica, larga esse brinquedo, menino, larga e vem almoçar, o almoço está servido, olhe que esfria, vem almoçar.