Arquivos Mensais: setembro 2009

The Magnificent Void

Durante muitos anos, ela
manteve sua lembrança. Desnecessário.
Grades que crescem enjaulando,

Aquelas que nos protegem de nós mesmos, aquelas que nos fazem sentir incomodamente seguros.

Talvez nunca houvesse de fato precisado da lembrança,

Talvez sempre tivesse contado a si própria
A mentira que por um tempo foi verdade.

Então um dia,
a lembrança nunca mais foi vista,
a lembrança nunca esteve lá.  Jamais existiu.

Então apagou o nome da lembrança de seu livro,
Era dia de Aniversário,

Feliz Aniversário.

(O ministério Novasimpressões adverte : cada um em seu feudo. Obrigado Steve Roach)

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Gate 9

Então é assim que termina : as nuvens vão ficar chumbo, os carros vão parar na estrada. Os guardas rodoviários armam barricadas, param tudo, mandam os carros passar.  Estamos parados para vê-los mandar a todos nós passar. Segundo eles, a estrada agora está livre; juro que não acredito. Muitas noites interrompidas provocam sono. Tento abrir os olhos, ligar o rádio do carro, impossível ouvir mais do que dois minutos. Assim vamos atravessando a estrada, assim vamos chegando sem ver a hora de partir. Então é assim que termina : não com um tiro no peito, mas com a revelação daquele que nos cria. Agora sabemos o nome daquele que nos cria : se sabemos o nome, somos iguais, extamente iguais à aquele que nos cria. É assim que termina : tomamos nossos lugares nas mesas do escritório, preparamo-nos para começar e adormecemos. Longos minutos. O silêncio, encoberto pelo barulho dos dedos no teclado do computador. Silêncio, carros passando na rua – é assim que termina. Com um sentimento de culpa abrimos os olhos, disfarçamos, sob o olhar indiferente do gerente. Saímos, atraídos pelo verde, pela rua movimentada e seu silêncio implícito. Vamos andando até o parque, portão nove – o parque está cheio, muito cheio de gente a essa hora da manhã de uma sexta feira, nem é feriado mas o parque está cheio. Cheio de gente, estamos agora de mãos dadas. É assim que termina : vejo pela última vez teu sorriso, nunca mais te vejo. Vou parando à sombra de uma grande árvore, ouço os ruídos, os patins, os skates, as bicicletas, os cães de nomes exóticos. Nunca mais te vejo, vou fechando os olhos. A cada segundo esqueço, vou ficando cada vez com mais sono. Entramos pelo portão 9, não importa tanto que estejas aqui do meu lado. Importa que estão todos aqui, aqueles que já passaram e vamos passar todos juntos de novo. Acho que vou dormir agora, quero que estejas do meu lado. Então apagamos todas as diferenças e tudo nasceu novamente, tudo nasceu mais colorido, tudo nasceu mais forte, tudo nasceu mais tranquilo : quando eu acordar vou acordar com teu sorriso um sorriso muito branco como são brancas as estrelas no céu a noite, as estrelas que agora podemos pegar nas mãos porque todos já sabemos o nome daquele que nos cria, porque somos aquele que nos cria e já sabemos de tudo, do passado e do presente, mas para frente não sei se sabemos, porque é assim que termina.

On the same day

Quer dizer então, que enquanto esperava inocente as flores caindo das árvores, era apunhalado por ti pelas costas ? Necessitava fazê-lo. Suma importância. Caso de Segurança Nacional. Quer dizer então que todo o sentimento foi em vão ? Meu amigo (não, por favor, não me chame de ‘meu amigo’), as coisas se dividem oportunas entre coisas ‘que interessam’ e coisas ‘que não interessam’. As coisas interessam um dia, e no outro não. Não adianta fingir que não o sabes. Tu sabes tão bem quanto eu. Quer dizer então que o tempo de espera foi perdido ? O problema não é meu, se perdeste tempo. É problema teu. Mas tu dissestes que um dia a Primavera chegaria, e que nela seríamos felizes. Eu disse isso ? Eu não disse nada. Ouves o que quiser. Mas não tens como provar. Mas tu me fizestes tão mal ! Não, não fiz mal a ninguém. Tu é que fizestes mal a ti mesmo. Tu te fazes mal. Tu és a encarnação ou encadernação do Mal. Quer dizer então que aquelas amizades, que julgava tão sinceras e tão devotadas não eram minhas, mas tuas, como foram tuas sempre ? Sim, foram e são minhas. Eu comando a todos com as mãos. Um gesto meu e posso fazê-los pensar todos que são a Rainha da Inglaterra, ou que tu és o inimigo que deve ser batido. E tu és o inimigo. Mas não devo dizê-lo. Sempre foste o inimigo.  Quer dizer então que abandonaste aqueles que dependem de nós em nome dos teus dias frívolos, de tuas tardes ociosas, de tuas manifestações que somente tu podes entender ? Sim. Eles precisam ficar sozinhos. Um dia vão ficar sozinhos como tu. Já podem ir se acostumando. Mas não pensas que sofrem ? E daí ? Alguém reclama a ti por ter sido abandonado ? Não. Mas não sei se não reclama pela mordaça que amarras em cada um. Persistirá essa dúvida eterna. Meu estômago dói. Inútil continuar a conversa, são previsíveis todos os argumentos. São perversos. Mas não adianta nada dizê-lo. Eu me retiro triste. Faço meia-volta e vou embora. Vou ouvindo na distância : por isso vim para te curar, para cravar a faca no teu peito ou nas tuas costas, para eliminar tua raça, tua espécie da face desse planeta. Percebo que ainda vai chegar o dia onde não fará diferença ouvir esses impropérios. Ainda que chegar o dia, impossível. A faca está cravada, nas costas por toda a Eternidade. O Amor pode ser o bálsamo que regenera suas próprias feridas. Por enquanto, melhor não ouvir nada. Na rua escura, do outro lado, não vejo olhos, não vejo boca, não vejo pernas ou mãos : vejo um sorriso. Um sorriso.

Pausa

Escrevi já há algum tempo, não obtive resposta.
Não há problema, o silêncio é a melhor resposta.

Meu telefone não é o mesmo, meu email empurra-te compulsório para a lixeira. Mandei dizer que não estou. Vai ver se estou lá na esquina. Inferno. Não poderei comparecer por força de compromissos assumidos posteriormente.  Será um prazer apagar da memória esse sorriso imbecil, essa ostentação toda. Não hás de usar o telefone, tampouco de escrever uma linha, não hás de gastar nenhum neurônio, 

O Tempo é curto, e às vezes tenho o prazer de esquecer que nos dias de ontem eu me lembraria da tua ausência.