Arquivos Mensais: novembro 2009

Avoriaz

Não sei quem sou. Não sei se me escutam. Não sei se faço barulho ou se podem entender meus pensamentos ou minhas palavras, ou o que entendo o que deva ser.
Tudo o que vejo é uma bonita paisagem.
O sol nasce na minha frente. Quando vai embora, está às minhas costas. Às vezes o tempo é muito lento. Outras vezes sinto apenas a velocidade das nuvens acima de mim.

À minha frente, meninos jogam bola :

– Caiu ! Caiu a bola lá dentro !
– Quem vai pegar ? Quem vai pegar ?

Silenciosamente imagino: venha pegar, venha pegar. Venha logo. Quanto mais tarde, mais escuro. Venha !

Brigas. Brigas. Vá você ! Não, é você quem vai ! Empurrões. Finalmente um menino mais corajoso, faz cara de sério e finalmente decide :

– Eu vou !

Passam-se minutos. Meia hora. Uma hora. Gritam seu nome. Xingam. Fazem troça. Mariquinha, mariquinha. Com o passar do tempo, entreolham-se. Já não fazem o mesmo barulho. Na realidade, fazem silêncio. Outro mais corajoso, anima-se a ir buscá-lo.

– Não vá ! Não vá !

Avança alguns passos, cego pelo contraste entre a luz do sol e o escuro. De repente, muda de idéia, vira as costas para mim, e fala para o grupo:

– Vamos buscar ajuda !

E vão embora, camisetas sujas, pernas,braços e joelhos arranhados. As nuvens passam. O silêncio fica maior.
Às vezes seria possível ouvir o vento conversando, alguns de seus passageiros.
Anoitece. Amanhece de novo. Anoitece de novo. Sol. Sol e noite. De novo e de novo.

Um ônibus, excursão, turistas. Descem todos para aproveitar a paisagem. Homens, mulheres, filhos, filhas. Uma menina de uns dez meses, engatinhando. Tem cabelos claros que refletem o sol, tem olhos cor de azeitona verde, que investigam o mundo. Estendem uma toalha no relvado, comida, bebida, conversas. Ela brinca com as flores, persegue formigas.

Oh, meu adorável bebê. Venha aqui comigo. Deixem vir as crianças. Não as impeçam. Aqui esse lugar é de quem se parece com as crianças (1)
Uma voz inaudível é ouvida, o bebê desaparece na sombra.
Os homens e as mulheres, e suas crianças recolhem suas bagagens. Máquinas fotográficas, sacolas de lanches. O ônibus arranca.

Passam as nuvens. Na sombra, a paisagem ouve o bebê chorar.

Silêncio.

Pelo campo, pela paisagem, o casal corre. De mãos dadas, abraços, beijos. Rolam no chão. Risadas, gargalhadas. Levantam-se. Ela o empurra e começa a correr.

– Morrerias por mim ?

Morreria sim, claro que morreria, eu penso em silêncio.
Não posso rir. Á primeira menção de uma risada, os pássaros eventuais levantariam vôo. E eu seria denunciado.
Apenas observo suas faces afogueadas, o riso, a respiração arfante, hormônios.

Rindo, rindo muito, ela dispara por caminhos invisíveis. Finalmente entra na sombra.

– Venha me pegar !

Ele sorri. E desaparece na sombra.

Quem eu sou ? Não sei quem sou. Não faço a mínima idéia.
À minha frente está a paisagem, acima de mim as nuvens, dentro de mim vozes, sussurros, zunidos.
O tempo irá passar, as noites virão, os dias irão aparecer no horizonte. Companhia mais constante : o silêncio. Acima das nuvens, acima do céu, do sol que nasce à minha frente e morre, trás de mim. Acima das vozes que me povoam, da luz e de sua sombra.

Talvez não seja, talvez exista.

Talvez não me reconheça se um dia pudesse olhar o que imagino minha face refletida em qualquer espelho dágua.

Estou apenas esperando.


 

 

(1) Lucas 18,15-17

Anúncios

Shapes of Things

Shapes of things before my eyes,
Just teach me to despise.
Will time make men more wise?
Here within my lonely frame,
My eyes just hurt my brain.
But will it seem the same?

Come tomorrow, will I be older?
Come tomorrow, may be a soldier.
Come tomorrow, may I be bolder than today?

Now the trees are almost green.
But will they still be seen?
When time and tide have been.
Fall into your passing hands.
Please don’t destroy these lands.
Don’t make them desert sands.

Chorus, Lead.

Soon I hope that I will find,
Thoughts deep within my mind.
That won’t disgrace my kind.

 

(escrito por JimMcCarthy,Keith Relf e Chris Dreja. Yardbirds. 1965)