Arquivos Mensais: março 2010

Astronomy Domine

Lime and limpid green, a second scene
A fight between the blue you once knew.
Floating down, the sound resounds
Around the icy waters underground.
Jupiter and Saturn, Oberon, Miranda and Titania.
Neptune, Titan, Stars can frighten.
Lime and limpid green, a second scene
A fight between the blue you once knew.
Floating down, the sound resounds
Around the icy waters underground.
Jupiter and Saturn, Oberon, Miranda and Titania.
Neptune, Titan, Stars can frighten.
Blinding signs flap,
Flicker, flicker, flicker blam. Pow, pow.
Stairway scare, Dan Dare, who’s there?
Lime and limpid green, the sounds around
The icy waters under
Lime and limpid green, the sounds around
The icy waters underground.

Syd Barrett

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Simple Words

Lucas, meu filho.

Você pode tentar desistir de mim.
Mas
Eu nunca vou desistir de você.

Por favor,
perdoe-me.

Seu Pai.

O Primeiro Dia

Manhã. O carro vai passar daqui há pouco.
Fechei os olhos, e vi o carro chegar.
Ford Comet 63, Vermelho. Corpo vermelho, teto pintado de branco. Ouço o ruído silencioso do motor. Senti cheiro de graxa e gasolina.
As duas portas iriam se abrir, minha tia sairia do banco do passageiro.
Vestida como uma artista de cinema de Hollywood. Óculos escuros. Uma grande saia rodada. Uma fita no cabelo. Bolsa de vime. Perfume.
Festa.
Meu tio sairia então de seu lugar de motorista. Sua cara curtida de sol. Seu fino bigode preto. Um cigarro já aceso em suas mãos. Os óculos escuros de aviador.
Festa. As portas abertas da casa para recebê-los.
Sentados no sofá e na poltrona. Histórias, histórias. Almoçaríamos juntos.
Meu tio piscaria o olho : “e então ? sua mala está pronta ?”
Estava. Logo após a sobremesa e o café eu abraçaria meu pai e minha mãe.
Já sentindo toda a saudade do mundo. Durou uns segundos, para ser sincero.
E o Ford Comet 63 vermelho faiscante e de discreto rabo-de-peixe, dirigido pelo tio com óculos de aviador,levantaria vôo para serpentear pela estrada de Santos.
Na estrada vamos vendo as montanhas, os túneis, o verde.
Minha tia diz : abra a boca várias vezes para destampar os ouvidos …
Agora vemos as refinarias, daqui há pouco os navios,
As ruas antigas, o túnel, a avenida da praia. Os trilhos do bonde.
O navio que passa lentamente, e revela o outdoor da geladeira incrustado na montanha.
Estacionamos na garagem do prédio alto de apartamentos pequenos.
As portas, as cortinas, o cheiro é de mar e cheiro de vazio, apartamento que não é aberto há muito tempo.
(Acho que a última vez foi no Verão passado. Pode ser)
Amanhã haverá a areia, o mar, a linha do horizonte.
A água acinzentada, areia amarela ;
“Menino, cuidado com o sol !”. Construções de areia. Guarda-sol. Sorvete.
Praia em dia de semana. Minha tia como uma artista de cinema na praia.
A tarde, devagar. Chuva passageira. Espero que não dure. E que bom, depois de uma meia hora, passou.
Na hora do jantar, meus tios sonham com uma viagem de navio a lugares com nomes esquisitos.
Os braços e o rosto estão vermelhos, os ombros naturalmente ardidos.
“Menino, cuidado com o Sol!”
“Não vá ficar doente !”
“É hora de dormir !”
Colocam-me na parte de baixo de um beliche vazio.
Entre o estrado e o colchão de cima, há folhas de jornal presas entre grades.
Posso ler o anúncio do cinema que chama para ver Agonia e Êxtase ou o Manto Sagrado,
A crônica do jogo sensacional do menino Pelé,
O Rei do Futebol, O Mundo aos seus pés, Os móveis da Pirani.
Posso também ver a cortina pintada com o Mapa-Mundi,
E da janela o reflexo espelhado das tevês no mesmo canal, nas salas escuras, todas o mesmo filme.
Então eu fecho os olhos, penso no Comet 63 e no navio que atravessa o Atlântico,
que leva minha tia vestida de artista de cinema,
e meu tio de óculos ray-ban para o estrangeiro.
O navio sai da doca, ruma lentamente,
Com graça faz as curvas por entre as montanhas,
E quando ele partir na direção da linha do horizonte,
eu sei que finalmente o tempo tinha chegado,
e que aquele era o primeiro dia.