Arquivos Mensais: maio 2010

Spindrift

Começava assim : Vulcano, morando dentro do Vulcão. E do Vulcão a fumaça se erguia, leve, tênue, todos os dias. Mas Vulcano às vezes andava raivoso. E quanto mais raivoso, mais a fornalha era alimentada, mais os gritos eram ouvidos para fora do Vulcão. E quando Vulcano gritava, a terra se quebrava em torrões, engolia gente, fazia com que todos, perto ou longe fossem engolidos para dentro do Vulcão. E a fumaça saia, em rolos, de todas as cores próximas do cinza, do vermelho do sangue, do púrpura da consciência, do laranja. E uma cortina espessa começou a se formar e invadir os quatro cantos dos céus. Aves morreram respirando o veneno da fumaça, aviões chocavam-se no ar, a chuva era impedida de cair. Todos nós paramos em casa, o telefone não tocou. Nem o rádio transmitiu vozes ou músicas através das suas ondas, que não conseguiam atravessar a fumaça que saia do Vulcão. Alguma coisa permanece entalada : não sabemos se estamos indo ou estamos voltando. E se estamos voltando, de onde estamos voltando, se sequer sabemos para onde estamos indo ?

Era uma menina, traços delicados, óculos grossos, sobrancelhas decididas. Não era Alice no País das Maravilhas, não tinha o vestido azul, seus cabelos eram compridos e castanhos, não eram louros como os de Alice. Na avenida era impossível enxergar-se alguma coisa, mas o silêncio fez com que tivesse coragem e atravessasse os cruzamentos, sem mesmo saber se o homenzinho da luminária estava parado na luz vermelha, ou se o homenzinho indicava em verde que era hora de andar. A fumaça não impediu que ouvisse o barulho da luz mudando de estado – não importa, nenhum carro poderia passar em alta ou baixa velocidade; então ela atravessou resoluta a rua e não importa a fumaça, teve vontade de girar como se fizesse parte de uma grande valsa, uma grande valsa dentro da fumaça. Mas não perdeu tempo e era impressionante como parecia compreender a lógica fria da alameda descendente, o piso de calçada que se soltava : era como cada pedrinha, cada desvio, cada armadilha disfarçada de cerca ou de planta estivesse decorada, cor e salteado, mas para baixo todo santo ajuda e agora vê-se a garota atravessar resolutamente a rua, e olhar para a esquerda a praça, normalmente cheia de tarados escondidos atrás das árvores, aleijados, mães com seus filhos e cachorros em mútua perseguição. Atravessou a outra rua e foi beirando uma ladeira tortuosa que se encontraria com o túnel que ejeta carros em busca de sinal vermelho em algum ponto infinito.
Com cuidado percebeu que a calçada era um fino fio de pedra sinuoso, e por alguns segundos, teve medo que passasse algum carro em alta velocidade. Inútil, não havia carros, não podiam trafegar. Soltou um suspiro de alívio quando sentiu a calçada da grande avenida debaixo de seus pés ; sentia que estava próxima de casa. Atravessou pela última vez a rua que se apresentava, parou um instante, colocou os livros debaixo do braço direito e com o esquerdo foi tateando, grades de prédios. Pronto, estava em casa, falta de energia nos elevadores, subiu animadamente as escadas que levavam ao seu andar. A porta do apartamento estava aberta, entrou, tudo quieto, e todos os cômodos estavam impregnados de fumaça. A luz de seu quarto estava acesa, a porta estava fechada, não trancada : achou estranho e entrou, e não houve tempo de achar mais estranho: reclinada em sua cama uma menina, traços delicados, sobrancelhas decididas e óculos grossos; apenas uma menina, estranhamente semelhante, estranhamente coincidente, apenas uma menina, lendo um romance.

Para Cristiana, amiga querida

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