O Último Dia

Acordo assustado. Uma música triste,
Triste, absolutamente triste. Música no ar. Meu coração foi atingido pela ponta de um compasso,
Ouvi as folhas dos galhos altos das árvores da praça balançando de um lado para outro, com o vento.
No outro dia, meu pai tinha chegado,
Seu automóvel Chevrolet dourado, imponente. Cheiro de novo.
As novidades da cidade. Os cartazes na rua, na volta seriam diferentes.
O mundo estaria à minha espera, bem como a segunda feira. Mas por enquanto, era só a música que vinha por entre as árvores,
Música da Igreja chamando seus fiéis.
Eu pretendia gastar a Eternidade,
Correndo na praça, brincando com meus amigos,
Indo comer jabuticaba no pé (tão doces que arrebentavam apenas com um olhar)
Jogando betes no chão quente da rua próxima ao meio dia,
O cheiro pesado da mamona assumindo o ar de que vai chover e nunca chove…
A sirene da concessionária Ford-Willys extremamente pontual, ao meio-dia. Todos os dias.
Todas essas coisas somadas,
iam ser usadas na Eternidade, mas, por enquanto,
as aulas me aguardavam na capital na segunda feira.
“Porque não posso viver aqui para sempre”, eu pergunto, enquanto vou lavar o rosto, escovar os dentes.
Minha tia perguntaria à minha mãe : porque ele não pode ficar aqui com a gente ?
E minha mãe, irritada : “esse menino tem escola !”
Isso bastava. Depois do café, saí, fui à praça.
A música havia parado. O vento soprava por entre as árvores.
Fui andando até a estação ferroviária. Havia uma névoa baixa .
E se eu me perdesse no mato ? Se ficasse eternamente perdido ?
Não precisaria ir embora …

A música havia cessado.
Deitei-me na grama. Daqui há pouco, os adultos estariam bebericando e falando sobre casos, sobre fazendas, sobre mortes.
Lembrei-me do cheiro de asfalto quente misturado com gasolina,
das gotas da chuva quente caindo na paisagem da tarde, da luz
do dia que não quer terminar, mas tem que terminar.
Fechei os olhos e só ouvi o vento, e o silêncio.
Se eu dormisse eternamente, não precisaria voltar. Aí, achei que era um pouco doloroso demais, dormir eternamente.
E nesse momento, escutei uma voz que me chamava :
“Venha almoçar, menino”
Não há outro jeito senão levantar, e seguir a voz que me chama.
No almoço estou quieto, mas algo me faz esquecer que daqui há pouco estaremos em marcha.
Brincadeiras, risadas. Daqui há pouco tudo será esquecido. Os pratos na mesa vazia.
O sol está brilhando, hora das malas, das despedidas.
Minha tia aparece com um pacote, dois grandes sanduíches. “Para você não sentir fome na viagem”.
Mas acabamos de almoçar.
O carro dá a partida. As vozes, quase em uníssono. Vão ficando para trás.
Adeus, adeus. Estou olhando para frente, não quero olhar para trás.
Viramos a direita, em direção da auto estrada.
Agora o carro desce a ladeira, em velocidade : a viagem vai começar.
Imagino uma de minhas tias no banco de trás, comentando : “a cidade cresceu…”
Agora são caminhos quase novos, advinhar
quais serão os cartazes novos exibidos,
os filmes novos,
as manhãs na clausura, professores enfadonhos,
o sol batendo lá fora …
Já estamos chegando. Final de Domingo.
Grandes tristezas. Cidade silenciosa.
Desarrumar as malas. Jantar. Cama. Amanhã, aula.
O motorista acionou os freios e o ônibus reagiu como um animal ferido,
pronto a engolir os poucos passageiros de um ponto escuro, mal-iluminado…
Deitado, esperando o sono.
Triste, triste confirmação, de que aquele,
Aquele havia sido o último dia.

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