Day after Day (from the Wayward Bus)

Segunda-feira, cedo. Olhei para o relógio. Um minuto para as seis horas. Pisquei o olho esquerdo para os dígitos meio embaçados : “Dessa vez, te peguei !” penso, voz jovial. Enquanto isso os dedos tateiam na escuridão e desligo o alarme que iria disparar, desesperado, daqui há segundos.

“Pronto”, lá vou eu escovar os dentes e preparar meu café da manhã solitário. A cabeça dói. Meu Deus, a cabeça.

Quando a água do café começa a borbulhar penso que minha cabeça dói muito. Muito. Não, não bebi nada, não me afundei no uísque, na cachaça, na cerveja.

Sequer uma gota. Será que foi a torta de frango ? Será que coloquei açúcar demais no refresco amargo de tamarindo? Não consigo lembrar. Encho a caneca de café e o cheiro quase faz com que eu vire pelo avesso.

Socorro.

Água, água. Aos poucos, consigo tomar o café e engolir um pedaço de casca de pão. Estou curioso, mas a sensação maior é a de morrer provávelmente daqui há pouco.

Ir trabalhar. Ponto de ônibus. Ponto cheio de gente.

Vinha vindo um ônibus vazio. Com o canto do olho li o seu letreiro de destino. Dizia “Minha Vida”. A dor de cabeça era maior, a náusea também. Subi sem pestanejar.

Ônibus vazio.

Motorista, cobrador. Cobrador dormindo.

Irrito-me e ele finalmente acorda, Não tem troco. Pode passar, mas aguarde aqui perto, já já dou o troco. Dor de cabeça, dor de cabeça ! Volta a dormir.

O ônibus arranca. Estou sozinho. Violentamente sou catapultado para o fundo do veículo. Meus joelhos chocam-se com um banco. Viro rapidamente, sento e seguro-me no banco da frente. O motorista é louco ! Dor de cabeça ! Acho que vou vomitar agora. Não! Respiro, sinto gotas de suor em toda a cara.

O motorista vai acelerando,

Acelerando. Estou sozinho. Muitas avenidas. Pontos lotados, apinhados de gente. De vez em quando ultrapassamos outros ônibus, quase vazios. Mesmo letreiro : “Minha Vida”. Normalmente três pessoas : um motorista, um cobrador, um passageiro.

‘As vezes passamos por outros ônibus, direções, destinos diferentes. Apinhados de gente. Lotados. Gente pendurada por todos os lados.

Passamos também por ônibus parecidos com esse em que estou. O letreiro, o destino marca “Minha Vida”. Vazios, vazios. Cobrador dormindo. Motorista contando histórias sozinho. Que ele fez, que ele desfez, que ele acerta as contas com os outros com as mãos, e, “na hora ! na hora !”.

Quanto mais alto ele fala, mais fico perto de achar que não sobreviverei até o dia de amanhã. Ora, que mentira.

Se a cabeça dói, isso deve ser um sinal de vida.

E, pensando bem,

Ainda prefiro meu ônibus, que anda torto, com um motorista falastrão e um cobrador dorminhoco.

E se eu pegasse o outro ônibus,

cheio de tanta gente, e não saberia em que ponto descer ?

E tanta gente para passar na roleta, e a falta de troco, e … tanta coisa.

Tanta coisa.
O motorista prepara-se para contar mais uma história infame… mais uma !

A cabeça doi. Urgência de respirar ar fresco.

Saltar daqui há pouco. Queria dormir como esse cobrador dorme.

Pelo menos, esse ônibus chama-se “Minha Vida”.

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