A Flor

Todos os dias, independente da manhã ou tarde ou noite, há a colheita da flor. Basta passar por perto de algum parque infantil, ou playground dentro de edifício. Quando ouço o balanço funcionando, as crianças em algazarra, ou mesmo silenciosas, lançando-se ao espaço em um contínuo movimento de vai e vem, o quanto menos lubrificadas as engrenagens do balanço, sei de seu guincho característico, e é o guincho que marca que as flores estão sendo produzidas. Se não as flores, as pétalas que as compõem. Para não despertar curiosidade, produzo um disfarce : ora sou fiscal de administradora de condomínio, ora sou anônimo, mas nunca apareço quando as crianças estão brincando. Poderia causar uma impressão esquisita, poderia desconfiar de um pedófilo perigoso, tramando o desaparecimento de uma criança. Por isso ajo o mais discreto possível. Em lugares públicos, observo o entardecer e o movimento lento das crianças indo embora para suas casas, acompanhadas de suas babás ou mães; quando os balanços estão vazios, quando as rodas estão paradas e os brinquedos de gangorra pararam em seu contínuo sobe-desce, aqui estou eu para observar o chão, a terra-batida, a areia.

As flores vem desmontadas. Suas pétalas são de vidro. Não são cacos de vidro comuns, como copos ou garrafas de refrigerantes quebrados. Tem formas curiosas e transparentes. Recolho-os em um saco de papel pardo, desses que são encontrados em padarias ou pequenos mercados; levo-os anonimamente para casa. Começo a apanhá-los no chão, na areia, na terra; pessimista, acho que não dá para encher a capacidade de um saco. Mas são tantos, tão pródigos, pingentes de lustres, cacos de copos, acabo vindo para casa carregando algo muito pesado.

Depois do jantar, sempre depois do jantar, chega a hora da montagem das flores. Após lavar a louça, forro a mesa da sala normalmente com jornal velho, vou buscar na caixa de remédios tintura de mercuro-cromo, mertiolate, algodão, gaze, água oxigenada. E então esvazio o saco de papel pardo em cima da mesa, e seguro todos os cacos, prendendo-os em minhas mãos, com o cuidado para que não se escapem por entre meus dedos. Faço isso com a maior pressão possível, e dói. O sangue se esvai por entre as palmas das minhas mãos, e tinge os cacos de vermelho, o que dá aos cacos, que vão se fundindo em pétalas, naturalmente a cor dessa tintura. A dor é muito grande, mas após alguns minutos, e muitas lágrimas silenciosas, já estou acostumado. Então não doi mais. Ou se dói, dessa dor me esqueço em poucos segundos. Aperto os cacos como se fosse grudá-los, e a cola e a tinta seria meu sangue; vejo que se transformam. Assim pedaços de vidro viram pétalas delicadas de rosa, ou sóis com formato do quase- coração dos antúlios, ou pedaços sutis de tulipas. Meu sangue poderia ter muitas cores, tinha vontade que tivesse muitas e muitas cores, não fosse apenas monótono e vermelho. Mas é apenas vermelho. Espero que me perdoe se isso for imperfeição.

Pronta a flor, sente-se o alívio. Hora da água oxigenada, hora da ardência, de limpar os pequenos cacos que restaram, hora em que não posso gritar para não assustar os vizinhos, hora em que a sujeira e o sangue escorrem na torneira da pia do banheiro, e o algodão é embebido de água oxigenada, mercuro-cromo, mertiolate. Uma cigana se olhasse para as cicatrizes que tenho em minhas mãos, diria que tantas linhas da vida eu tenho que minhas reencarnações estão impressas em minhas palmas; já penso que um dia não terei mais linhas nas palmas das minhas mãos; não terei mais impressões digitais. Não importa tanto. A flor está pronta. Uma bonita embalagem de celofane colorido, um cartão com um poema, ou um fragmento de um poema, um pedaço de mídia magnética com uma canção dos Beatles – sim, você adora Beatles e eu me enganaria profundamente se pensasse que é o único jeito de conquistar você. Nada: você apenas cantaria a canção, sem se importar de onde veio, e quem a trouxe a você; isso é mais do que bom.

No outro dia acordo cedo, muito cedo, ainda tudo escuro, e o ônibus no sentido inverso ao do trabalho e no sentido direto da sua casa. Vou sentado, equilibrando minha maleta de trabalho, o vaso com a flor e o presente. Descer perto de sua casa, mãos transpirando e ardendo, corpo suando, passos apressados, o zelador já está a postos, o discurso é apenas lacônico, o zelador recebe as flores e educadamente pergunta se desejo falar com você. Assustado, digo que não, que estou com pressa, que já estou atrasado. Ele sorri seu sorriso metódico das seis e meia da manhã e eu escapo pela escadaria, me metendo no primeiro ônibus que aparece, rezando para que você não tenha tido a excelente idéia de acordar cedo; na verdade não, deve estar com a escova de dentes no canto da boca, preparando-se para entrar no banho ; os mortos presos nas fotos que presidem sua casa hão de ver você passar voando, enrolada em uma toalha, fechando com um estrondo a porta do seu quarto e pronunciando palavras inaudíveis, porque o barulho do secador de cabelos abafa todo o silêncio ou a tentativa dele.

Correndo, você abrirá a porta, olhando o relógio e pensando pela milésima vez que está atrasada e que precisa dar um jeito nisso – e lá estarão as flores, que você recolherá sem dizer palavra, e o jornal, que mais uma vez você pensará que precisa suspender a assinatura de uma vez por todas, porque não tem tempo para ler. Lá vai você, cantando pneus pela contra-mão, enquanto já estou bem adiantado, parado no trânsito, e me permito fechar os olhos e cochilar até a hora de descer. E desço, e o dia já começou. Dizer bom dia aos colegas, ouvir as mesmas piadas de sempre, lavar as mãos, que já estão bem diferentes do que eram ontem. Os caminhos são outros, as linhas de vida são outras.

Na hora do almoço engolir um sanduiche. Há escolas por perto, há parques, há prédios. Há balanços que funcionam sem qualquer lubrificação, o que me entusiasma veridicamente pois sei que o ruído produz pétalas, matéria prima de pétalas. Vou recolhendo, discretamente guardo na mala de trabalho após o almoço. Muitas vezes há vidro para um bouquet de flores; isso me alegra. Mas me lembro que nunca você diz nada. Já deve ter gritado comigo, já deve ter urrado, ter dito mil palavrões, ter decretado de que nada vale a pena. Perdoe-me. Sinceramente, perdoe-me. O dia em que perdão não significar necessariamente desprezo eterno, peço que me perdoe. Se for possível, evidente. O melhor que posso fazer são essas flores, que faço com minhas mãos e com meu sangue. Sei que há de me desprezar o resto dos meus dias; o resto dos meus dias não saberá que existo. Saberá apenas das flores. Saberá apenas que abandonei você talvez no momento em que mais precisava de mim. Jamais saberá que não era tão importante as angústias que eu sentia, a vontade de gritar, a vontade de virar do avesso e começar tudo de novo; isso jamais você saberá. Saberá apenas o quão lindo era o seu sentimento; de mim, pouca coisa talvez saiba . Como Lennon e McCartney: “ And nobody seems to like him/they can tell what he wants to do/and he never shows his feelings/But a fool on the hill/sees the sun going down/and the eyes in his head/see the world spinning round” .

As pétalas colhidas realmente perfazem um buquê. Maldita idéia de limpar minhas mãos com álcool. Urrei como um animal ferido. Ficou parecendo rosas frescas, recém colhidas. Que não seja cansativo, espero. Por favor, não se canse. Mesmo se me mandar prender, mesmo se me mandar exilar à Sibéria, jamais conseguirá eliminar o que é livre e o que jamais vai morrer dentro de mim. É sexta-feira, amanhã posso sair mais tarde, entregar meu presente. Junto embrulho um exemplar de “Orientação dos Gatos”, de Júlio Cortázar, não sei exato o porquê, mas acredito que ainda há de haver um tempo onde você preguiçosamente folheará as páginas do livro. Por favor, não se canse, é apenas um livro.

O ônibus me deixa perto de sua casa, manhã cinzenta e enevoada, não tenho bagagem em minhas mãos, a não ser o presente, e o vaso com as flores vermelhas. Manhã enevoada diz que daqui irá sair um dia ensolarado, e daqui há pouco, você vai sair, para aproveitar o dia ensolarado. É preciso então andar depressa. Maldição. O prédio está todo trancado e meu comparsa zelador, que não diz nada mas apenas sorri cúmplice não sei do quê, não está. Deve ser sua folga semanal, qualquer coisa assim. Apertar o botão da campainha do interfone de seu apartamento seria um atentado à loucura. Com o coração na boca aperto o botão do vizinho. Poderia deixar uma encomenda para a senhora do apartamento doze ? Uma voz gentil me responde que sim, muito embora ela não saiba se ela está em casa, e que faz tempo que não a vê. Não sabe se viajou, não sabe onde se encontra. Pergunta se desejo que ela aperte a campainha, e respondo que só quero deixar uma encomenda, e ela gentilmente pede que eu espere um pouco, pois virá até o portão recolher minha encomenda, e deixá-la à porta do apartamento doze.

Segundos pareceram séculos. Era uma senhora de uma certa idade e sorriu com simpatia quando viu o vaso de flores e o presente. “Não precisa dizer meu nome, ela sabe de quem é essa surpresa”. A senhora sorri, eu cumprimento, ela olha disfarçadamente para as palmas machucadas das minhas mãos, viro nos calcanhares como um soldado e vou andando. Vejo a padaria onde tomei café muitas vezes, o telefone público que usei tantas e tantas vezes, o ponto de taxi onde embarcava de volta à minha casa. Vou subindo a rua, sem olhar para trás. A farmácia onde comprei tantos remédios, a agência bancária onde paguei contas e retirei dinheiro. A floricultura onde comprei tantas flores. Os pontos de ônibus, um em seguida do outro. A rua é uma serpente, sinuosa, cordilheira. As almas que dormem dentro dos túmulos hão de virar suas cabeças ou o que delas restou para me ver passar. A avenida me espera, o calor do final de semana, as casas paradas, mudas, as janelas que dormem com vidro aberto e que esperam que uma boa alma regue as plantas paradas no calor. As palmas das minhas mãos continuam brancas; sei que as linhas renascerão. Não me importa que a linha da vida seja curta, ou que não haja filhos nas linhas dos filhos, ou que a linha do amor pareça um igarapé com minúsculos afluentes. Não me importa muita coisa, penso, enquanto vou caminhando pela sombra pelo lado da calçada da Faculdade de Medicina. Renascerão linhas, não cicatrizes, a dor será uma lembrança, mas quem é que pode dizer que uma lembrança dura uma fração de segundos, cinco minutos ou uma vida inteira ? Mistérios fechados dentro de enigmas. Antes sentia medo, muito medo…agora não sinto medo, não sinto falta, não sinto falta nenhuma. Se os mistérios continuam dentro de seus enigmas, continuo não sentindo falta nenhuma. Dos mistérios e dos enigmas.

São Paulo, Agosto,2011

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2 Respostas para “A Flor

  1. Z. 14 de setembro de 2011 às 14:32

    “ And nobody seems to like him/they can tell what he wants to do/and he never shows his feelings/But a fool on the hill/sees the sun going down/and the eyes in his head/see the world spinning round” . Essa é uma citação de “The Fool on The Hill”, de Lennon e McCartney.

  2. Lulih Rojanski 26 de setembro de 2011 às 11:18

    Caio, acabo de ler estes últimos textos e vou levar pelo dia belíssimas impressões de setembro. Senti aqui saudades do Ave, Palavra!

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