Alguém disse (para Helena e Paula)

“Aqui é 5055-XXXX. Não podemos atender no momento. Por favor, deixe seu recado após o bip que entraremos em contato assim que possível.” Biiip…

Nada como um dia após o outro. O tempo tudo cura. Dê tempo ao tempo.

Com o tempo tudo passa. Um dia de cada vez.

Alguém disse, alguém me disse. Quase todo mundo me diz. Até mesmo eu digo para mim mesmo. Pouco depois de 2 meses, vejo que nada é menos verdadeiro. Só parece e nem tanto.

Setor R

No começo é o choque, o impacto. Esse se reduz, diminui, vai passando, amenizando, aliviando, como anestesia. Aí volta uma dor. Suave e forte.

Choramos e sentimos sua presença. Sentimos e choramos sua ausência.

É que diante de presença tão marcante, a ausência parece temporária.

Em cada objeto, em cada espaço, em cada foto, em cada cisco no chão. Em cada palavra amiga, em cada atitude, em cada canto, em cada anotação de letra redonda e macia. No comportamento, no apartamento, na mente, no ar, nos sonhos.

Hoje sonhei com você. De novo.

Não tiramos suas roupas, não doamos suas coisas. Ainda. Não apagamos seu perfil nas redes, não nos desfizemos de suas lembranças. Nenhuma. Nem de nossos momentos. Nenhum. Foram muitos. E ainda são.

Nem sequer trocamos sua mensagem da secretária eletrônica. Aí não vai nem um sinal de morbidez ou loucura. Quando pensei, pensei ser a chance ouvir novamente sua voz, firme e doce, calorosa e carinhosa, sempre que der vontade, sempre que der saudades. De reverter o irreversível, de não perder sua luta. Sua luta me impressionou, me conquistou. Sua voz me conquista, me impressiona.

Na maior parte do tempo, ela fica desligada. Mas se alguém quiser ouvir, avise que eu compartilho. Aí você liga, a secretária atende e você ouve. Alerto que dói, arrepia, desnorteia. Mas é bom. No fim vem aquele calorzinho sabor alívio.

…bip “Aqui é 5055-XXXX. Não podemos atender no momento. Por favor, deixe o seu…” Por favor, entendam. É aquela vozinha gostosa que se repete em cada recado, em cada ligação. É só uma voz, eu sei, mas como resistir a esse mantra sensorial diante da infinita saudades? Considerem como uma “foto da voz” que guardamos como recordação.

Quadra 398

Acalentei-me no seu último abraço. Intenso como o primeiro. Estava na sua despedida. Quase sem ar, você nos deu uma lição (mais uma) de dignidade, serenidade, consciência, desapego. Depois, já em seu delírio da morfina, foi engraçada, radiante, criança (que no fundo sempre foi). A última risada, legítima gargalhada, uma bálsamo. Também ouvi o seu último suspiro. Sereno e tranqüilo, como você pediu, como você queria. Ficou gravado como um recado, um agradecimento mudo. Eu entendi! Parece até que escolheu o dia, um domingo, só para não atrapalhar ninguém. E a hora, emblemática, a mesma em que você nasceu. Para fechar o ciclo, com a mesma perfeição que sempre praticou.

Sep. XX

Toque em frente, seja prático. A vida continua, você me diria agora. Ok, continua, mas é diferente. A vida, tudo é diferente agora.

Queria que você me ligasse, nem que seja em meus sonhos.

Hoje sonhei com você. De novo. Foi você quem me ligou?

…biiip…”ei, preta, me ligue quando puder, preciso falar. Tenho muitas coisas para contar. Bjsss”

Texto de Marcelo Brick, amigo, irmão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: