Microconto

Fazia muito calor em uma tarde de sábado.
Um teatro lotado. Cortinas pretas. Fronteira entre a luz e a cegueira do escuro.
Palco mal-iluminado. Banda tocando. Tentando animar os jovens e as crianças.
Hemp Hemp.  Hei Hei. Hemp Hemp. Hei Hei.

A jovem cantora, alta, morena, cabelos pretos e cacheados. Seu olhar imperativo.
Uma das mãos segura um microfone. A outra, segura os fios de não-nylon invisíveis que prendem os espectadores ao palco.
Esses fios fazem as espinhas dorsais das pessoas voarem para cima e para baixo, como pipas ao vento.
Hemp Hemp. Hei Hei. Hemp Hemp. Hei Hei.

Vocais descabelados, desarmonizados. O calor lá fora.
De repente, a jovem cantora se irrita :
Ei, você ! Você, quinta fileira. Quarta cadeira do meio para a esquerda !
Que tem eu ?

Você ! Você não está aplaudindo o suficiente ! Hemp Hemp. Hei Hei ! Hemp Hemp Hei Hei !

Levanto, meu colarinho está empapado de suor. Vou andando lentamente pela escuridão para abrir as cortinas e voltar à cegueira temporária da Luz.
Os ruídos, o canto, a música, tudo vai ficando cada vez mais distante.
No caminho até o lugar onde moro, um grande rio passa, silencioso.

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Uma resposta para “Microconto

  1. Marisa 22 de fevereiro de 2012 às 16:55

    Só hj consegui ver com calma seus escritos. Tantos. Todos cativantes. Como é bom poder ler…

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