O Canto da Sereia

Não sei se o navio singra o mar, ou o mar passa por debaixo do navio.
Tudo frio, quase congelado. Estou em um navio imenso. Uma viagem de férias, para esquecer. Esquecer do quê ? O esquecimento é uma estrada fronteiriça entre o país do perdão e o país da vingança. Preciso lembrar de esquecer. Dias e dias na amurada, vendo passar por mim crianças malcriadas, velhos apaixonados, galãs de novela, moças casadoiras, enólogos ébrios. Dou as costas a todos eles. Acho que no fundo, devo ter medo de tudo.
Passaremos em alguns dias onde Fernão de Magalhães deixou um oceano para trafegar em outro. Na verdade é tudo a mesma coisa, o Homem tem necessidade de dar nomes as coisas. Os dois oceanos são cheios e turbulentos. Lembro-me quando vim de minha terra. Era um navio muito menor do que esse que estou agora. Tudo balançava, e os poucos passageiros corriam até a amurada do convés e vomitavam. Era um cargueiro que alugava as cabines dos tripulantes que o capitão não podia contratar, e os corajosos passageiros nelas viajavam. A noite, bem noite, o cozinheiro e seu ajudante jogava ao mar os restos de comida, as cascas, o lixo da cozinha. Uma procissão de peixes e outros seres marinhos acompanhava fielmente o navio.  Todas as noites, com muita precisão na mesma hora, a procissão se formava, e somente se dispersaria quando o último bocado fosse engolido pelo último ser marinho.
Hoje é um navio imenso. Uma cidade flutuante. Um medo multiplicado por algumas mil pessoas, que uma pedra surja no meio de algum oceano e que todos afundemos. Por enquanto as pessoas ocupam-se em bailes de gala, cumprimentos ao comandante, jogos no cassino no navio, e conversas inconsistentes pelas poltronas reclináveis dispostas sem fim ao longo de um convés sem fim. Um telefonema de dois minutos para casa, com o objetivo de saber como estão as coisas, se vai tudo bem, deve custar um milhão de dólares, ou mais. Quem se importa ? Estamos cruzando o oceano. Ou o oceano nos trespassa.
…—…

Era uma tarde muito bonita e fazia muito frio. Anoitece muito cedo aqui. Os dias são curtos, as noites longas. Isso me faz sofrer.
Observo algo sair da água. Não se parece com um animal. Talvez tenha olhos de animal. E cabelos longos e lisos. Parte do seu corpo está nu. Traços de mulher.
Olha assustada em volta, olha para o navio, enorme, distante. Meu olhar encontra o seu. Ela leva os braços ao peito, cobrindo seus seios. Seu riso é aberto como uma criança que encara um picadeiro de circo.
Ainda penso que é uma alucinação.
Ou que o tédio dessa viagem onde me enfiei é tão grande e estou tão triste, que uma parte de mim boceja para despertar desse tédio, boceja tão alto que cria uma figura imaginária, flutuando no meio do oceano frio, gelado, uma mulher nua com um sorriso de criança, que olha para mim, e consigo quase ler seu pensamento no seu sorriso : ‘duvido que você acredite’.
Ela tira o cabelo da testa, coloca-o para trás em duas metades.
Tira o excesso de água de sua face branca, e toma fôlego, aparenta tomar muito fôlego.
Quando mergulha, vejo que ao invés de quadris e pernas, ela tem uma metade peixe, e sua nadadeira traseira é grande, e desaparece instantaneamente na água.
Uma Sereia.
…—…

A noite caiu, e enquanto casais de dançarinos voam flutuando nos salões de baile, tendo por companhia os oficiais de bordo e o comandante em seus trajes de gala, estou deitado em minha cama, sonhando, com um perigo.
Não pensei que existissem. Que fosse tudo uma lenda antiga e popular.
Que perigo. Não sei onde li histórias de marinheiros que perdiam a fala, ficavam em estado de choque, hipnotizados pela beleza desses seres.
Se a sereia abrir a boca e cantar, o canto será apenas um segundo.
O canto mais afinado, sedutor, irá retorcer os motores dos navios, despedaçar suas hélices, provocar rachaduras nos cascos.

Os marinheiros e o capitão, em êxtase, pela graça de poder ouvir esse canto.
Talvez milhares morram. Náufrago, boiando por entre seus cadáveres, alguns com expressão de graça, outros com expressão de horror, estrelas mudam sua configuração no céu: adormeço.

…—…

Outra vez uma tarde, outra vez ventos frios, Outra vez o convés.

Mas confesso. Confesso, sim, que esquadrinho cada pedaço de mar. Cada onda, cada movimento calmo. Gaivotas, indicando presença de terra firme. Mar tranquilo, aqui, ali. De repente algo sai da água e se sacode, como se quisesse desempapar os cabelos d´água.
Ela me achou. Sorri. Bate os braços na água, como se me convidasse. Agora, venha, agora !

O Tempo parou. Não conseguia olhar outra coisa senão seus olhos. Sua cara de criança levada. Seu sorriso, irresistível.

Homem ao mar ! Homem ao mar !

Ninguém percebeu quando pulei na água, despenquei metros e metros da amurada, comecei a nadar, na água que congelava meus ossos, meus nervos, minha pele.  Há gente demais nesse navio. Exausto. Ela vai ficando cada vez mais perto; engraçado : cada vez mais perto e cada vez mais longe.

…—…

Estou na frente dela, ela sorri. Me abraça com seus braços longos, me esquenta com seu sorriso. Olha para mim com seus olhos ternos e decididos. Minhas defesas são como os muros de uma cidade atacada. Todos já caíram. Ela pega na minha mão como se não mais convidasse: estou intimado. Mergulhamos.

…—…

Tenho medo, tenho muito medo. Estou sendo levado ao fundo do Oceano, escuro, frio, gelado. Vou me afogar. Surpresa : respiro normalmente. E vou sendo levado, sem reagir.
Medo. Dragões e serpentes marinhas atravessam nosso caminho até o fundo.
Ela brinca com esses animais, como fazemos festa com nossos cães e gatos em nossa vida na Terra. Não há tempo para virar-se e dizer para mim, na língua das Sereias : não tenha medo.  Se escolhido para viajar até seus domínios, no fundo do Oceano, então não devo ter medo.

…—…

Mais medo: cascos de navios que naufragaram, alguns em movimento pela força das correntes, Pedaços de esqueletos na areia. Corpos desconjuntados. Capitães e marinheiros que ouviram o canto, e pularam de seus barcos. Náufragos que sobreviveram. Dias no mar gelado, não aguentaram, fome e frio. Pedaços de corpos insepultos.
…—…
Elas imobilizam cada ser humano com seu canto e o trazem ao seu refúgio.  Quando estão afogados e sem vida, elas cravam seus dentes afiados, e devoram a carne.
Ela tem filhos. Filhos jovens, mais do que adolescentes; cabelos compridos e barbas. Adultos, altos. Grandes metades de peixe, grandes metades de homem. Braços musculosos.
Como se reproduzem ? Como são tantos assim ? Como vivem ? Sim, eu sei do que se alimentam. Como morrem ?
Ela faz um carinho em cada um. São muitos. Impossível imaginar. Jovem demais para ser mãe. No oceano talvez as coisas sejam diferentes.
Todos tem cabelos compridos, como a mãe. Repartido ao meio, cabelo longo. Barbas longas. Ficam sérios, flutuando em pé. Um ao lado do outro.
Ela me leva a uma espécie de divã de pedra, onde se reclina. E me pega no colo, como se eu fosse uma criança, ou a Pietá de Michelangelo. Todos os seus filhos estão flutuando, em pé, como cavalos marinhos, cercando seu trono. E ela vai ficar com os olhos vermelhos,

E logo colocará suas presas para fora, e serei estraçalhado.
Meu corpo será dividido, e eles se dividem pelo banquete, mãe e filhos.

Não, não ! Devo dizer apenas isso : Não !

…—…

Eu fujo como sei fugir. Eu me desvencilho dos seus braços com toda a dor e alívio do mundo. Como se houvesse uma fração de segundo e apenas uma fração de segundo. Não sei nadar.
Meu corpo flutua como se já fizesse parte do mar há muito tempo. E vou deslizando como uma serpente, sabendo que talvez meu caminho não seja nem até a metade da distância à superfície.

Ela poderia nadar muito mais rápido do que eu, e prender minhas pernas com seus braços,

Chamar seus amigos monstros, as serpentes, E seus filhos, E todos me cercariam e eu estaria vencido.
A distância entre nós aumenta.
Quando me confundo com o raio de sol, que desce do céu e entra em paralaxe na água, ela desiste. Seus filhos desistem também. Ela flutua dentro da água, parada, vendo-me fugir.
Eu não olharia para trás. A superfície cada vez mais perto; Submergir, ofegando. A água me congela. Ouço gritos, cada vez mais fracos : “Homem ao Mar, Homem ao Mar !”

Eu sei que do navio lançaram botes, e que me recolhem completamente adormecido. Eu tinha conseguido. Mas não esqueço aquele olhar. 

…—…

Já recobrei parte dos sentidos e já faz dois dias que não me olham mais como o homem que caiu no Mar. Por razões de segurança evito ir até a parte de trás do convés onde tudo começou.
Bobagem. Talvez não enxergue mais nada. A água gelada me curou. Espero que tenha me curado.
Tento me distrair olhando as mesas de jogo, as centenas de pessoas que não fazem outra coisa senão perder dinheiro em sua maioria.
Em uma das lojas do navio, uma moça muito bonita tenta comprar uma máquina fotográfica para sua mãe, irritada. Parece o contrário : uma mãe tentando mais uma vez, aquietar  um filho ou uma filha mimada.
A moça conversa animadamente com o vendedor, mal se importando se o que vai comprar custa cinco ou seis vezes mais que custaria, se houvesse comprado na cidade. Finalmente vira-se para mim, que finjo olhar os produtos expostos e pergunta : moço, essa câmera que estou comprando é muito boa, não é ?

…—…

Estou paralisado. Conheço esse olhar. Conheço profundamente esse olhar. Eu mergulhei nesse olhar. Passei por animais marinhos; dragões, monstros, serpentes. Passei por jovens efebos com cauda de peixe. Passei por navios cheios de cracas que caiam e se mexiam no fundo do mar. Por esqueletos e corpos insepultos.
Por caveiras horrorizadas e troncos de corpos mutilados. Escapei de ser devorado vivo.

Por isso, não me demoro. Baixo os olhos, meu medo : “sim, moça. Essa câmera que está comprando é muito boa. Pode levar sem susto.”. Vou embora para não sei onde. A moça mal abriu a boca, já respondi e estou desaparecendo. Talvez tenha trazido algum livro, ou um caderno em branco onde anotaria a viagem. Mas olho as folhas do caderno de papel branco e pautado,  seu olhar me fita, fecho os olhos, tento esvaziar a mente, não me lembrar de nada.

…—…

Pelos alto-falantes, nosso comandante anuncia. Senhoras e senhores, dentro de mais alguns minutos estaremos passando pelo mesmo lugar onde Fernão de Magalhães, em 1520, entrou, deixando o Oceano Atlântico, e passando a navegar no Oceano que foi chamado Pacífico….
Era um lindo dia. Muito frio. Quanto mais o sol brilha, aumenta a sensação de frio.
Não devo olhar para trás. Desejo de subir ao convés e de assistir centenas de máquinas fotográficas, em seus cliques silenciosos. Milhares de cliques, milhares de repetições da mesma cena. Estamos cruzando os oceanos ou os oceanos nos trespassam. Não devo olhar para trás, Mas sei, com todos os meus átomos, que ela acabou de voltar à superfície.
E que ela olha para o navio que está indo embora, e seu olhar é uma mistura de tristeza e ódio. Então ela vai abrir a boca para cantar, e todos morreremos, naufragados, hipnotizados.

O navio toca todas as suas sirenes, barulho ensurdecedor. Festa.
Estamos atravessando os oceanos. Tão grande o barulho. Damos graças a Deus, comemoramos.

Agora não é mais possível ouvir o canto, o suave canto da Sereia.

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