Arquivos Mensais: junho 2012

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Seria mais elegante se eu passasse em alguma papelaria dessas grandes, que ocupam galpões enormes onde lápis e canetas podem ser comprados às dúzias, e procurasse caixas de papelão. Não caixas de presentes, estampadas com motivos floridos ou natalinos ou de festas, mas caixas grandes, de papelão cartonado, nessa cor meio amarela, meio parda, com tampas. Vejo em um canto da loja, acho que tem um ta…manho apropriado, não são tão caras assim, as tampas fecham bem. Saio desconjuntado com duas enormes caixas dentro de enormes sacolas brancas, acho que no ônibus devem rir de mim. A cada freada ou acelerada do coletivo rezo aos céus para que não fiquem amassadas; entro no apartamento e constato que nada foi quebrado, nada rasurado, nada amassado. Coloco as caixas abertas paralelas em cima do meu colchão de solteiro, e assim começamos.
Mandei lavar as camisas que você me trouxe do estrangeiro, que a lavanderia entregou imaculadas, em plásticos brilhantes, com papel para proteger o colarinho, e, no caso da única camisa de mangas compridas, papel para proteger os punhos, e alfinetes fechando. Creio que não vão amassar, assim, enfileiradas como numa gaveta de uma pequena loja. Mandei lavar também as camisetas sem gola, e as camisetas polo. Peço desculpas desde já pelas camisetas sem gola que usei bastante, foram úteis em um calor tórrido como o nosso. Mas estão todas limpas, perfeitamente higienizadas; há uma roupa de baixo que também mandei lavar porque não uso, há as meias soquete, há os calções que utilizava para andar com você pelo parque. Tudo usado, claro, mas em perfeito estado de conservação, sem máculas, sem botões soltos, sem elásticos gastos. As meias estão imaculadamente brancas. Na sapataria gastei uma fortuna tentando limpar as botas de camurça que ganhei de você no Natal ; porém o tênis de caminhada que você me deu passei uma manhã de domingo limpando sozinho. E ficou como se tivesse acabado de sair da caixa; pena que não tenho caixa. A máquina fotográfica que você me trouxe, tive que comprar outra para devolver. Na primeira semana de uso o bloco ótico soltou-se, e embora fosse possível visualizar as poucas fotos que experimentei (de hibiscos de um jardim aqui perto), não foi mais possível fazer qualquer fotografia: ficava mais barato comprar outra e devolver do que mandar consertar: foi uma pena. O livro da biografia de John Coltrane, também devolvo, acho que devo ter lido algumas centenas de vezes, decorei a história. É meu ponto fraco, como pode ver: tenho facilidade em decorar histórias, tenho dificuldade em esquecer. Ficou mais fácil colocar assim, as coisas em duas grandes caixas de papelão. Você saberá o que fazer com elas, o mais rápido que eu possa imaginar. Ah, sim: os filmes que gravou para mim, e o que comprou no estrangeiro e lembrança de aniversário. Não me leve a mal: às vezes não tenho tempo nem mesmo para assistir o noticiário na televisão, quanto mais tempo para ver um filme. Oh, e não esqueçamos o dinheiro que eu lhe devia. Fotocopiei o comprovante do depósito em dinheiro vivo em sua conta corrente. Está em um envelope branco, e assinei a fotocópia reconhecendo a dívida e dizendo : “ainda falta”. Em uma caixa branca, coloquei os remédios : as pomadas de cortisona e de arnica, os analgésicos, os antiácidos, os comprimidos de luteína, o chá que tomando todos os dias é capaz de baixar a glicemia do sangue. Devo ter tomado muito desse chá; a doçura que havia em mim desaparece, enquanto aparece minha capacidade de esquecer. As cartas, eliminei do correio eletrônico, aquelas que eram impressas foram para o fogo. Fotos também. Percebo agora que coube tudo em uma única caixa. Ficou pesado. Pego o primeiro táxi para seu apartamento, vou olhando no relógio, espero que dê tempo, daqui há pouco o porteiro sai de folga e o prédio fica vazio,  Chegamos, peço ao motorista de táxi que me espere um pouco. O porteiro sorri ao me ver, há quanto tempo, por favor, senhor, poderia entregar essa caixa à senhora ? Claro, entrego, ele concorda, aperta minha mão e vai sorrindo me acompanhando até o portão, um sorriso claro, uma leve gargalhada. O taxi arranca e não olho para trás, mas se tivesse que perguntar uma última coisa, perguntaria se você faz isso com todos, não é verdade ?
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