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Seria mais elegante se eu passasse em alguma papelaria dessas grandes, que ocupam galpões enormes onde lápis e canetas podem ser comprados às dúzias, e procurasse caixas de papelão. Não caixas de presentes, estampadas com motivos floridos ou natalinos ou de festas, mas caixas grandes, de papelão cartonado, nessa cor meio amarela, meio parda, com tampas. Vejo em um canto da loja, acho que tem um ta…manho apropriado, não são tão caras assim, as tampas fecham bem. Saio desconjuntado com duas enormes caixas dentro de enormes sacolas brancas, acho que no ônibus devem rir de mim. A cada freada ou acelerada do coletivo rezo aos céus para que não fiquem amassadas; entro no apartamento e constato que nada foi quebrado, nada rasurado, nada amassado. Coloco as caixas abertas paralelas em cima do meu colchão de solteiro, e assim começamos.
Mandei lavar as camisas que você me trouxe do estrangeiro, que a lavanderia entregou imaculadas, em plásticos brilhantes, com papel para proteger o colarinho, e, no caso da única camisa de mangas compridas, papel para proteger os punhos, e alfinetes fechando. Creio que não vão amassar, assim, enfileiradas como numa gaveta de uma pequena loja. Mandei lavar também as camisetas sem gola, e as camisetas polo. Peço desculpas desde já pelas camisetas sem gola que usei bastante, foram úteis em um calor tórrido como o nosso. Mas estão todas limpas, perfeitamente higienizadas; há uma roupa de baixo que também mandei lavar porque não uso, há as meias soquete, há os calções que utilizava para andar com você pelo parque. Tudo usado, claro, mas em perfeito estado de conservação, sem máculas, sem botões soltos, sem elásticos gastos. As meias estão imaculadamente brancas. Na sapataria gastei uma fortuna tentando limpar as botas de camurça que ganhei de você no Natal ; porém o tênis de caminhada que você me deu passei uma manhã de domingo limpando sozinho. E ficou como se tivesse acabado de sair da caixa; pena que não tenho caixa. A máquina fotográfica que você me trouxe, tive que comprar outra para devolver. Na primeira semana de uso o bloco ótico soltou-se, e embora fosse possível visualizar as poucas fotos que experimentei (de hibiscos de um jardim aqui perto), não foi mais possível fazer qualquer fotografia: ficava mais barato comprar outra e devolver do que mandar consertar: foi uma pena. O livro da biografia de John Coltrane, também devolvo, acho que devo ter lido algumas centenas de vezes, decorei a história. É meu ponto fraco, como pode ver: tenho facilidade em decorar histórias, tenho dificuldade em esquecer. Ficou mais fácil colocar assim, as coisas em duas grandes caixas de papelão. Você saberá o que fazer com elas, o mais rápido que eu possa imaginar. Ah, sim: os filmes que gravou para mim, e o que comprou no estrangeiro e lembrança de aniversário. Não me leve a mal: às vezes não tenho tempo nem mesmo para assistir o noticiário na televisão, quanto mais tempo para ver um filme. Oh, e não esqueçamos o dinheiro que eu lhe devia. Fotocopiei o comprovante do depósito em dinheiro vivo em sua conta corrente. Está em um envelope branco, e assinei a fotocópia reconhecendo a dívida e dizendo : “ainda falta”. Em uma caixa branca, coloquei os remédios : as pomadas de cortisona e de arnica, os analgésicos, os antiácidos, os comprimidos de luteína, o chá que tomando todos os dias é capaz de baixar a glicemia do sangue. Devo ter tomado muito desse chá; a doçura que havia em mim desaparece, enquanto aparece minha capacidade de esquecer. As cartas, eliminei do correio eletrônico, aquelas que eram impressas foram para o fogo. Fotos também. Percebo agora que coube tudo em uma única caixa. Ficou pesado. Pego o primeiro táxi para seu apartamento, vou olhando no relógio, espero que dê tempo, daqui há pouco o porteiro sai de folga e o prédio fica vazio,  Chegamos, peço ao motorista de táxi que me espere um pouco. O porteiro sorri ao me ver, há quanto tempo, por favor, senhor, poderia entregar essa caixa à senhora ? Claro, entrego, ele concorda, aperta minha mão e vai sorrindo me acompanhando até o portão, um sorriso claro, uma leve gargalhada. O taxi arranca e não olho para trás, mas se tivesse que perguntar uma última coisa, perguntaria se você faz isso com todos, não é verdade ?
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O Canto da Sereia

Não sei se o navio singra o mar, ou o mar passa por debaixo do navio.
Tudo frio, quase congelado. Estou em um navio imenso. Uma viagem de férias, para esquecer. Esquecer do quê ? O esquecimento é uma estrada fronteiriça entre o país do perdão e o país da vingança. Preciso lembrar de esquecer. Dias e dias na amurada, vendo passar por mim crianças malcriadas, velhos apaixonados, galãs de novela, moças casadoiras, enólogos ébrios. Dou as costas a todos eles. Acho que no fundo, devo ter medo de tudo.
Passaremos em alguns dias onde Fernão de Magalhães deixou um oceano para trafegar em outro. Na verdade é tudo a mesma coisa, o Homem tem necessidade de dar nomes as coisas. Os dois oceanos são cheios e turbulentos. Lembro-me quando vim de minha terra. Era um navio muito menor do que esse que estou agora. Tudo balançava, e os poucos passageiros corriam até a amurada do convés e vomitavam. Era um cargueiro que alugava as cabines dos tripulantes que o capitão não podia contratar, e os corajosos passageiros nelas viajavam. A noite, bem noite, o cozinheiro e seu ajudante jogava ao mar os restos de comida, as cascas, o lixo da cozinha. Uma procissão de peixes e outros seres marinhos acompanhava fielmente o navio.  Todas as noites, com muita precisão na mesma hora, a procissão se formava, e somente se dispersaria quando o último bocado fosse engolido pelo último ser marinho.
Hoje é um navio imenso. Uma cidade flutuante. Um medo multiplicado por algumas mil pessoas, que uma pedra surja no meio de algum oceano e que todos afundemos. Por enquanto as pessoas ocupam-se em bailes de gala, cumprimentos ao comandante, jogos no cassino no navio, e conversas inconsistentes pelas poltronas reclináveis dispostas sem fim ao longo de um convés sem fim. Um telefonema de dois minutos para casa, com o objetivo de saber como estão as coisas, se vai tudo bem, deve custar um milhão de dólares, ou mais. Quem se importa ? Estamos cruzando o oceano. Ou o oceano nos trespassa.
…—…

Era uma tarde muito bonita e fazia muito frio. Anoitece muito cedo aqui. Os dias são curtos, as noites longas. Isso me faz sofrer.
Observo algo sair da água. Não se parece com um animal. Talvez tenha olhos de animal. E cabelos longos e lisos. Parte do seu corpo está nu. Traços de mulher.
Olha assustada em volta, olha para o navio, enorme, distante. Meu olhar encontra o seu. Ela leva os braços ao peito, cobrindo seus seios. Seu riso é aberto como uma criança que encara um picadeiro de circo.
Ainda penso que é uma alucinação.
Ou que o tédio dessa viagem onde me enfiei é tão grande e estou tão triste, que uma parte de mim boceja para despertar desse tédio, boceja tão alto que cria uma figura imaginária, flutuando no meio do oceano frio, gelado, uma mulher nua com um sorriso de criança, que olha para mim, e consigo quase ler seu pensamento no seu sorriso : ‘duvido que você acredite’.
Ela tira o cabelo da testa, coloca-o para trás em duas metades.
Tira o excesso de água de sua face branca, e toma fôlego, aparenta tomar muito fôlego.
Quando mergulha, vejo que ao invés de quadris e pernas, ela tem uma metade peixe, e sua nadadeira traseira é grande, e desaparece instantaneamente na água.
Uma Sereia.
…—…

A noite caiu, e enquanto casais de dançarinos voam flutuando nos salões de baile, tendo por companhia os oficiais de bordo e o comandante em seus trajes de gala, estou deitado em minha cama, sonhando, com um perigo.
Não pensei que existissem. Que fosse tudo uma lenda antiga e popular.
Que perigo. Não sei onde li histórias de marinheiros que perdiam a fala, ficavam em estado de choque, hipnotizados pela beleza desses seres.
Se a sereia abrir a boca e cantar, o canto será apenas um segundo.
O canto mais afinado, sedutor, irá retorcer os motores dos navios, despedaçar suas hélices, provocar rachaduras nos cascos.

Os marinheiros e o capitão, em êxtase, pela graça de poder ouvir esse canto.
Talvez milhares morram. Náufrago, boiando por entre seus cadáveres, alguns com expressão de graça, outros com expressão de horror, estrelas mudam sua configuração no céu: adormeço.

…—…

Outra vez uma tarde, outra vez ventos frios, Outra vez o convés.

Mas confesso. Confesso, sim, que esquadrinho cada pedaço de mar. Cada onda, cada movimento calmo. Gaivotas, indicando presença de terra firme. Mar tranquilo, aqui, ali. De repente algo sai da água e se sacode, como se quisesse desempapar os cabelos d´água.
Ela me achou. Sorri. Bate os braços na água, como se me convidasse. Agora, venha, agora !

O Tempo parou. Não conseguia olhar outra coisa senão seus olhos. Sua cara de criança levada. Seu sorriso, irresistível.

Homem ao mar ! Homem ao mar !

Ninguém percebeu quando pulei na água, despenquei metros e metros da amurada, comecei a nadar, na água que congelava meus ossos, meus nervos, minha pele.  Há gente demais nesse navio. Exausto. Ela vai ficando cada vez mais perto; engraçado : cada vez mais perto e cada vez mais longe.

…—…

Estou na frente dela, ela sorri. Me abraça com seus braços longos, me esquenta com seu sorriso. Olha para mim com seus olhos ternos e decididos. Minhas defesas são como os muros de uma cidade atacada. Todos já caíram. Ela pega na minha mão como se não mais convidasse: estou intimado. Mergulhamos.

…—…

Tenho medo, tenho muito medo. Estou sendo levado ao fundo do Oceano, escuro, frio, gelado. Vou me afogar. Surpresa : respiro normalmente. E vou sendo levado, sem reagir.
Medo. Dragões e serpentes marinhas atravessam nosso caminho até o fundo.
Ela brinca com esses animais, como fazemos festa com nossos cães e gatos em nossa vida na Terra. Não há tempo para virar-se e dizer para mim, na língua das Sereias : não tenha medo.  Se escolhido para viajar até seus domínios, no fundo do Oceano, então não devo ter medo.

…—…

Mais medo: cascos de navios que naufragaram, alguns em movimento pela força das correntes, Pedaços de esqueletos na areia. Corpos desconjuntados. Capitães e marinheiros que ouviram o canto, e pularam de seus barcos. Náufragos que sobreviveram. Dias no mar gelado, não aguentaram, fome e frio. Pedaços de corpos insepultos.
…—…
Elas imobilizam cada ser humano com seu canto e o trazem ao seu refúgio.  Quando estão afogados e sem vida, elas cravam seus dentes afiados, e devoram a carne.
Ela tem filhos. Filhos jovens, mais do que adolescentes; cabelos compridos e barbas. Adultos, altos. Grandes metades de peixe, grandes metades de homem. Braços musculosos.
Como se reproduzem ? Como são tantos assim ? Como vivem ? Sim, eu sei do que se alimentam. Como morrem ?
Ela faz um carinho em cada um. São muitos. Impossível imaginar. Jovem demais para ser mãe. No oceano talvez as coisas sejam diferentes.
Todos tem cabelos compridos, como a mãe. Repartido ao meio, cabelo longo. Barbas longas. Ficam sérios, flutuando em pé. Um ao lado do outro.
Ela me leva a uma espécie de divã de pedra, onde se reclina. E me pega no colo, como se eu fosse uma criança, ou a Pietá de Michelangelo. Todos os seus filhos estão flutuando, em pé, como cavalos marinhos, cercando seu trono. E ela vai ficar com os olhos vermelhos,

E logo colocará suas presas para fora, e serei estraçalhado.
Meu corpo será dividido, e eles se dividem pelo banquete, mãe e filhos.

Não, não ! Devo dizer apenas isso : Não !

…—…

Eu fujo como sei fugir. Eu me desvencilho dos seus braços com toda a dor e alívio do mundo. Como se houvesse uma fração de segundo e apenas uma fração de segundo. Não sei nadar.
Meu corpo flutua como se já fizesse parte do mar há muito tempo. E vou deslizando como uma serpente, sabendo que talvez meu caminho não seja nem até a metade da distância à superfície.

Ela poderia nadar muito mais rápido do que eu, e prender minhas pernas com seus braços,

Chamar seus amigos monstros, as serpentes, E seus filhos, E todos me cercariam e eu estaria vencido.
A distância entre nós aumenta.
Quando me confundo com o raio de sol, que desce do céu e entra em paralaxe na água, ela desiste. Seus filhos desistem também. Ela flutua dentro da água, parada, vendo-me fugir.
Eu não olharia para trás. A superfície cada vez mais perto; Submergir, ofegando. A água me congela. Ouço gritos, cada vez mais fracos : “Homem ao Mar, Homem ao Mar !”

Eu sei que do navio lançaram botes, e que me recolhem completamente adormecido. Eu tinha conseguido. Mas não esqueço aquele olhar. 

…—…

Já recobrei parte dos sentidos e já faz dois dias que não me olham mais como o homem que caiu no Mar. Por razões de segurança evito ir até a parte de trás do convés onde tudo começou.
Bobagem. Talvez não enxergue mais nada. A água gelada me curou. Espero que tenha me curado.
Tento me distrair olhando as mesas de jogo, as centenas de pessoas que não fazem outra coisa senão perder dinheiro em sua maioria.
Em uma das lojas do navio, uma moça muito bonita tenta comprar uma máquina fotográfica para sua mãe, irritada. Parece o contrário : uma mãe tentando mais uma vez, aquietar  um filho ou uma filha mimada.
A moça conversa animadamente com o vendedor, mal se importando se o que vai comprar custa cinco ou seis vezes mais que custaria, se houvesse comprado na cidade. Finalmente vira-se para mim, que finjo olhar os produtos expostos e pergunta : moço, essa câmera que estou comprando é muito boa, não é ?

…—…

Estou paralisado. Conheço esse olhar. Conheço profundamente esse olhar. Eu mergulhei nesse olhar. Passei por animais marinhos; dragões, monstros, serpentes. Passei por jovens efebos com cauda de peixe. Passei por navios cheios de cracas que caiam e se mexiam no fundo do mar. Por esqueletos e corpos insepultos.
Por caveiras horrorizadas e troncos de corpos mutilados. Escapei de ser devorado vivo.

Por isso, não me demoro. Baixo os olhos, meu medo : “sim, moça. Essa câmera que está comprando é muito boa. Pode levar sem susto.”. Vou embora para não sei onde. A moça mal abriu a boca, já respondi e estou desaparecendo. Talvez tenha trazido algum livro, ou um caderno em branco onde anotaria a viagem. Mas olho as folhas do caderno de papel branco e pautado,  seu olhar me fita, fecho os olhos, tento esvaziar a mente, não me lembrar de nada.

…—…

Pelos alto-falantes, nosso comandante anuncia. Senhoras e senhores, dentro de mais alguns minutos estaremos passando pelo mesmo lugar onde Fernão de Magalhães, em 1520, entrou, deixando o Oceano Atlântico, e passando a navegar no Oceano que foi chamado Pacífico….
Era um lindo dia. Muito frio. Quanto mais o sol brilha, aumenta a sensação de frio.
Não devo olhar para trás. Desejo de subir ao convés e de assistir centenas de máquinas fotográficas, em seus cliques silenciosos. Milhares de cliques, milhares de repetições da mesma cena. Estamos cruzando os oceanos ou os oceanos nos trespassam. Não devo olhar para trás, Mas sei, com todos os meus átomos, que ela acabou de voltar à superfície.
E que ela olha para o navio que está indo embora, e seu olhar é uma mistura de tristeza e ódio. Então ela vai abrir a boca para cantar, e todos morreremos, naufragados, hipnotizados.

O navio toca todas as suas sirenes, barulho ensurdecedor. Festa.
Estamos atravessando os oceanos. Tão grande o barulho. Damos graças a Deus, comemoramos.

Agora não é mais possível ouvir o canto, o suave canto da Sereia.

Microconto

Fazia muito calor em uma tarde de sábado.
Um teatro lotado. Cortinas pretas. Fronteira entre a luz e a cegueira do escuro.
Palco mal-iluminado. Banda tocando. Tentando animar os jovens e as crianças.
Hemp Hemp.  Hei Hei. Hemp Hemp. Hei Hei.

A jovem cantora, alta, morena, cabelos pretos e cacheados. Seu olhar imperativo.
Uma das mãos segura um microfone. A outra, segura os fios de não-nylon invisíveis que prendem os espectadores ao palco.
Esses fios fazem as espinhas dorsais das pessoas voarem para cima e para baixo, como pipas ao vento.
Hemp Hemp. Hei Hei. Hemp Hemp. Hei Hei.

Vocais descabelados, desarmonizados. O calor lá fora.
De repente, a jovem cantora se irrita :
Ei, você ! Você, quinta fileira. Quarta cadeira do meio para a esquerda !
Que tem eu ?

Você ! Você não está aplaudindo o suficiente ! Hemp Hemp. Hei Hei ! Hemp Hemp Hei Hei !

Levanto, meu colarinho está empapado de suor. Vou andando lentamente pela escuridão para abrir as cortinas e voltar à cegueira temporária da Luz.
Os ruídos, o canto, a música, tudo vai ficando cada vez mais distante.
No caminho até o lugar onde moro, um grande rio passa, silencioso.

Poema Enlutado

Quando a chuva cair e molhar
suas mãos ensanguentadas,
pense naqueles que você mata todos os dias,
em seu Holocausto particular.

Não há sabão no mundo,
capaz de limpar o sangue de suas mãos.

As lentes da câmara são como espelhos:
a face pode até falar,
mas o reflexo
ah, o reflexo da imagem é mentiroso.

Jamais há de enlutar-se,
porque todos foram perdidos.
E você anda todos e todos os dias,
Como um espectro que vaga por aí,
sem qualquer utilidade a alguém
senão ao que pensa à sua própria desalma.

Meus amigos de verdade, meus irmãos, minhas irmãs,
Minhas paixões infinitas,
Meus traidores, meus inimigos,
meus falsos ou convenientes amigos,
Todas as almas perdidas,
Todos os meus amores,
que erraram mesmo em sua infinita bondade,
Na sua infinita complacência, na sua infinita
humanidade,
Todos aqueles que me mataram:
Saibam todos que ressuscitei no mesmo dia.

Todos eles estão perdoados,
(se é dado a mim perdoar)
Todos eles habitam meu coração.

No entanto, lamento informar ao seu espectro:

Jamais perdoaremos.
Nunca esqueceremos.

Por enquanto,
a chuva vai começar.

TIRE AS SUAS MÃOS IMUNDAS DO MEU DESERTO.
DESAPAREÇA.

Alguém disse (para Helena e Paula)

“Aqui é 5055-XXXX. Não podemos atender no momento. Por favor, deixe seu recado após o bip que entraremos em contato assim que possível.” Biiip…

Nada como um dia após o outro. O tempo tudo cura. Dê tempo ao tempo.

Com o tempo tudo passa. Um dia de cada vez.

Alguém disse, alguém me disse. Quase todo mundo me diz. Até mesmo eu digo para mim mesmo. Pouco depois de 2 meses, vejo que nada é menos verdadeiro. Só parece e nem tanto.

Setor R

No começo é o choque, o impacto. Esse se reduz, diminui, vai passando, amenizando, aliviando, como anestesia. Aí volta uma dor. Suave e forte.

Choramos e sentimos sua presença. Sentimos e choramos sua ausência.

É que diante de presença tão marcante, a ausência parece temporária.

Em cada objeto, em cada espaço, em cada foto, em cada cisco no chão. Em cada palavra amiga, em cada atitude, em cada canto, em cada anotação de letra redonda e macia. No comportamento, no apartamento, na mente, no ar, nos sonhos.

Hoje sonhei com você. De novo.

Não tiramos suas roupas, não doamos suas coisas. Ainda. Não apagamos seu perfil nas redes, não nos desfizemos de suas lembranças. Nenhuma. Nem de nossos momentos. Nenhum. Foram muitos. E ainda são.

Nem sequer trocamos sua mensagem da secretária eletrônica. Aí não vai nem um sinal de morbidez ou loucura. Quando pensei, pensei ser a chance ouvir novamente sua voz, firme e doce, calorosa e carinhosa, sempre que der vontade, sempre que der saudades. De reverter o irreversível, de não perder sua luta. Sua luta me impressionou, me conquistou. Sua voz me conquista, me impressiona.

Na maior parte do tempo, ela fica desligada. Mas se alguém quiser ouvir, avise que eu compartilho. Aí você liga, a secretária atende e você ouve. Alerto que dói, arrepia, desnorteia. Mas é bom. No fim vem aquele calorzinho sabor alívio.

…bip “Aqui é 5055-XXXX. Não podemos atender no momento. Por favor, deixe o seu…” Por favor, entendam. É aquela vozinha gostosa que se repete em cada recado, em cada ligação. É só uma voz, eu sei, mas como resistir a esse mantra sensorial diante da infinita saudades? Considerem como uma “foto da voz” que guardamos como recordação.

Quadra 398

Acalentei-me no seu último abraço. Intenso como o primeiro. Estava na sua despedida. Quase sem ar, você nos deu uma lição (mais uma) de dignidade, serenidade, consciência, desapego. Depois, já em seu delírio da morfina, foi engraçada, radiante, criança (que no fundo sempre foi). A última risada, legítima gargalhada, uma bálsamo. Também ouvi o seu último suspiro. Sereno e tranqüilo, como você pediu, como você queria. Ficou gravado como um recado, um agradecimento mudo. Eu entendi! Parece até que escolheu o dia, um domingo, só para não atrapalhar ninguém. E a hora, emblemática, a mesma em que você nasceu. Para fechar o ciclo, com a mesma perfeição que sempre praticou.

Sep. XX

Toque em frente, seja prático. A vida continua, você me diria agora. Ok, continua, mas é diferente. A vida, tudo é diferente agora.

Queria que você me ligasse, nem que seja em meus sonhos.

Hoje sonhei com você. De novo. Foi você quem me ligou?

…biiip…”ei, preta, me ligue quando puder, preciso falar. Tenho muitas coisas para contar. Bjsss”

Texto de Marcelo Brick, amigo, irmão.

A Flor

Todos os dias, independente da manhã ou tarde ou noite, há a colheita da flor. Basta passar por perto de algum parque infantil, ou playground dentro de edifício. Quando ouço o balanço funcionando, as crianças em algazarra, ou mesmo silenciosas, lançando-se ao espaço em um contínuo movimento de vai e vem, o quanto menos lubrificadas as engrenagens do balanço, sei de seu guincho característico, e é o guincho que marca que as flores estão sendo produzidas. Se não as flores, as pétalas que as compõem. Para não despertar curiosidade, produzo um disfarce : ora sou fiscal de administradora de condomínio, ora sou anônimo, mas nunca apareço quando as crianças estão brincando. Poderia causar uma impressão esquisita, poderia desconfiar de um pedófilo perigoso, tramando o desaparecimento de uma criança. Por isso ajo o mais discreto possível. Em lugares públicos, observo o entardecer e o movimento lento das crianças indo embora para suas casas, acompanhadas de suas babás ou mães; quando os balanços estão vazios, quando as rodas estão paradas e os brinquedos de gangorra pararam em seu contínuo sobe-desce, aqui estou eu para observar o chão, a terra-batida, a areia.

As flores vem desmontadas. Suas pétalas são de vidro. Não são cacos de vidro comuns, como copos ou garrafas de refrigerantes quebrados. Tem formas curiosas e transparentes. Recolho-os em um saco de papel pardo, desses que são encontrados em padarias ou pequenos mercados; levo-os anonimamente para casa. Começo a apanhá-los no chão, na areia, na terra; pessimista, acho que não dá para encher a capacidade de um saco. Mas são tantos, tão pródigos, pingentes de lustres, cacos de copos, acabo vindo para casa carregando algo muito pesado.

Depois do jantar, sempre depois do jantar, chega a hora da montagem das flores. Após lavar a louça, forro a mesa da sala normalmente com jornal velho, vou buscar na caixa de remédios tintura de mercuro-cromo, mertiolate, algodão, gaze, água oxigenada. E então esvazio o saco de papel pardo em cima da mesa, e seguro todos os cacos, prendendo-os em minhas mãos, com o cuidado para que não se escapem por entre meus dedos. Faço isso com a maior pressão possível, e dói. O sangue se esvai por entre as palmas das minhas mãos, e tinge os cacos de vermelho, o que dá aos cacos, que vão se fundindo em pétalas, naturalmente a cor dessa tintura. A dor é muito grande, mas após alguns minutos, e muitas lágrimas silenciosas, já estou acostumado. Então não doi mais. Ou se dói, dessa dor me esqueço em poucos segundos. Aperto os cacos como se fosse grudá-los, e a cola e a tinta seria meu sangue; vejo que se transformam. Assim pedaços de vidro viram pétalas delicadas de rosa, ou sóis com formato do quase- coração dos antúlios, ou pedaços sutis de tulipas. Meu sangue poderia ter muitas cores, tinha vontade que tivesse muitas e muitas cores, não fosse apenas monótono e vermelho. Mas é apenas vermelho. Espero que me perdoe se isso for imperfeição.

Pronta a flor, sente-se o alívio. Hora da água oxigenada, hora da ardência, de limpar os pequenos cacos que restaram, hora em que não posso gritar para não assustar os vizinhos, hora em que a sujeira e o sangue escorrem na torneira da pia do banheiro, e o algodão é embebido de água oxigenada, mercuro-cromo, mertiolate. Uma cigana se olhasse para as cicatrizes que tenho em minhas mãos, diria que tantas linhas da vida eu tenho que minhas reencarnações estão impressas em minhas palmas; já penso que um dia não terei mais linhas nas palmas das minhas mãos; não terei mais impressões digitais. Não importa tanto. A flor está pronta. Uma bonita embalagem de celofane colorido, um cartão com um poema, ou um fragmento de um poema, um pedaço de mídia magnética com uma canção dos Beatles – sim, você adora Beatles e eu me enganaria profundamente se pensasse que é o único jeito de conquistar você. Nada: você apenas cantaria a canção, sem se importar de onde veio, e quem a trouxe a você; isso é mais do que bom.

No outro dia acordo cedo, muito cedo, ainda tudo escuro, e o ônibus no sentido inverso ao do trabalho e no sentido direto da sua casa. Vou sentado, equilibrando minha maleta de trabalho, o vaso com a flor e o presente. Descer perto de sua casa, mãos transpirando e ardendo, corpo suando, passos apressados, o zelador já está a postos, o discurso é apenas lacônico, o zelador recebe as flores e educadamente pergunta se desejo falar com você. Assustado, digo que não, que estou com pressa, que já estou atrasado. Ele sorri seu sorriso metódico das seis e meia da manhã e eu escapo pela escadaria, me metendo no primeiro ônibus que aparece, rezando para que você não tenha tido a excelente idéia de acordar cedo; na verdade não, deve estar com a escova de dentes no canto da boca, preparando-se para entrar no banho ; os mortos presos nas fotos que presidem sua casa hão de ver você passar voando, enrolada em uma toalha, fechando com um estrondo a porta do seu quarto e pronunciando palavras inaudíveis, porque o barulho do secador de cabelos abafa todo o silêncio ou a tentativa dele.

Correndo, você abrirá a porta, olhando o relógio e pensando pela milésima vez que está atrasada e que precisa dar um jeito nisso – e lá estarão as flores, que você recolherá sem dizer palavra, e o jornal, que mais uma vez você pensará que precisa suspender a assinatura de uma vez por todas, porque não tem tempo para ler. Lá vai você, cantando pneus pela contra-mão, enquanto já estou bem adiantado, parado no trânsito, e me permito fechar os olhos e cochilar até a hora de descer. E desço, e o dia já começou. Dizer bom dia aos colegas, ouvir as mesmas piadas de sempre, lavar as mãos, que já estão bem diferentes do que eram ontem. Os caminhos são outros, as linhas de vida são outras.

Na hora do almoço engolir um sanduiche. Há escolas por perto, há parques, há prédios. Há balanços que funcionam sem qualquer lubrificação, o que me entusiasma veridicamente pois sei que o ruído produz pétalas, matéria prima de pétalas. Vou recolhendo, discretamente guardo na mala de trabalho após o almoço. Muitas vezes há vidro para um bouquet de flores; isso me alegra. Mas me lembro que nunca você diz nada. Já deve ter gritado comigo, já deve ter urrado, ter dito mil palavrões, ter decretado de que nada vale a pena. Perdoe-me. Sinceramente, perdoe-me. O dia em que perdão não significar necessariamente desprezo eterno, peço que me perdoe. Se for possível, evidente. O melhor que posso fazer são essas flores, que faço com minhas mãos e com meu sangue. Sei que há de me desprezar o resto dos meus dias; o resto dos meus dias não saberá que existo. Saberá apenas das flores. Saberá apenas que abandonei você talvez no momento em que mais precisava de mim. Jamais saberá que não era tão importante as angústias que eu sentia, a vontade de gritar, a vontade de virar do avesso e começar tudo de novo; isso jamais você saberá. Saberá apenas o quão lindo era o seu sentimento; de mim, pouca coisa talvez saiba . Como Lennon e McCartney: “ And nobody seems to like him/they can tell what he wants to do/and he never shows his feelings/But a fool on the hill/sees the sun going down/and the eyes in his head/see the world spinning round” .

As pétalas colhidas realmente perfazem um buquê. Maldita idéia de limpar minhas mãos com álcool. Urrei como um animal ferido. Ficou parecendo rosas frescas, recém colhidas. Que não seja cansativo, espero. Por favor, não se canse. Mesmo se me mandar prender, mesmo se me mandar exilar à Sibéria, jamais conseguirá eliminar o que é livre e o que jamais vai morrer dentro de mim. É sexta-feira, amanhã posso sair mais tarde, entregar meu presente. Junto embrulho um exemplar de “Orientação dos Gatos”, de Júlio Cortázar, não sei exato o porquê, mas acredito que ainda há de haver um tempo onde você preguiçosamente folheará as páginas do livro. Por favor, não se canse, é apenas um livro.

O ônibus me deixa perto de sua casa, manhã cinzenta e enevoada, não tenho bagagem em minhas mãos, a não ser o presente, e o vaso com as flores vermelhas. Manhã enevoada diz que daqui irá sair um dia ensolarado, e daqui há pouco, você vai sair, para aproveitar o dia ensolarado. É preciso então andar depressa. Maldição. O prédio está todo trancado e meu comparsa zelador, que não diz nada mas apenas sorri cúmplice não sei do quê, não está. Deve ser sua folga semanal, qualquer coisa assim. Apertar o botão da campainha do interfone de seu apartamento seria um atentado à loucura. Com o coração na boca aperto o botão do vizinho. Poderia deixar uma encomenda para a senhora do apartamento doze ? Uma voz gentil me responde que sim, muito embora ela não saiba se ela está em casa, e que faz tempo que não a vê. Não sabe se viajou, não sabe onde se encontra. Pergunta se desejo que ela aperte a campainha, e respondo que só quero deixar uma encomenda, e ela gentilmente pede que eu espere um pouco, pois virá até o portão recolher minha encomenda, e deixá-la à porta do apartamento doze.

Segundos pareceram séculos. Era uma senhora de uma certa idade e sorriu com simpatia quando viu o vaso de flores e o presente. “Não precisa dizer meu nome, ela sabe de quem é essa surpresa”. A senhora sorri, eu cumprimento, ela olha disfarçadamente para as palmas machucadas das minhas mãos, viro nos calcanhares como um soldado e vou andando. Vejo a padaria onde tomei café muitas vezes, o telefone público que usei tantas e tantas vezes, o ponto de taxi onde embarcava de volta à minha casa. Vou subindo a rua, sem olhar para trás. A farmácia onde comprei tantos remédios, a agência bancária onde paguei contas e retirei dinheiro. A floricultura onde comprei tantas flores. Os pontos de ônibus, um em seguida do outro. A rua é uma serpente, sinuosa, cordilheira. As almas que dormem dentro dos túmulos hão de virar suas cabeças ou o que delas restou para me ver passar. A avenida me espera, o calor do final de semana, as casas paradas, mudas, as janelas que dormem com vidro aberto e que esperam que uma boa alma regue as plantas paradas no calor. As palmas das minhas mãos continuam brancas; sei que as linhas renascerão. Não me importa que a linha da vida seja curta, ou que não haja filhos nas linhas dos filhos, ou que a linha do amor pareça um igarapé com minúsculos afluentes. Não me importa muita coisa, penso, enquanto vou caminhando pela sombra pelo lado da calçada da Faculdade de Medicina. Renascerão linhas, não cicatrizes, a dor será uma lembrança, mas quem é que pode dizer que uma lembrança dura uma fração de segundos, cinco minutos ou uma vida inteira ? Mistérios fechados dentro de enigmas. Antes sentia medo, muito medo…agora não sinto medo, não sinto falta, não sinto falta nenhuma. Se os mistérios continuam dentro de seus enigmas, continuo não sentindo falta nenhuma. Dos mistérios e dos enigmas.

São Paulo, Agosto,2011

Day after Day (from the Wayward Bus)

Segunda-feira, cedo. Olhei para o relógio. Um minuto para as seis horas. Pisquei o olho esquerdo para os dígitos meio embaçados : “Dessa vez, te peguei !” penso, voz jovial. Enquanto isso os dedos tateiam na escuridão e desligo o alarme que iria disparar, desesperado, daqui há segundos.

“Pronto”, lá vou eu escovar os dentes e preparar meu café da manhã solitário. A cabeça dói. Meu Deus, a cabeça.

Quando a água do café começa a borbulhar penso que minha cabeça dói muito. Muito. Não, não bebi nada, não me afundei no uísque, na cachaça, na cerveja.

Sequer uma gota. Será que foi a torta de frango ? Será que coloquei açúcar demais no refresco amargo de tamarindo? Não consigo lembrar. Encho a caneca de café e o cheiro quase faz com que eu vire pelo avesso.

Socorro.

Água, água. Aos poucos, consigo tomar o café e engolir um pedaço de casca de pão. Estou curioso, mas a sensação maior é a de morrer provávelmente daqui há pouco.

Ir trabalhar. Ponto de ônibus. Ponto cheio de gente.

Vinha vindo um ônibus vazio. Com o canto do olho li o seu letreiro de destino. Dizia “Minha Vida”. A dor de cabeça era maior, a náusea também. Subi sem pestanejar.

Ônibus vazio.

Motorista, cobrador. Cobrador dormindo.

Irrito-me e ele finalmente acorda, Não tem troco. Pode passar, mas aguarde aqui perto, já já dou o troco. Dor de cabeça, dor de cabeça ! Volta a dormir.

O ônibus arranca. Estou sozinho. Violentamente sou catapultado para o fundo do veículo. Meus joelhos chocam-se com um banco. Viro rapidamente, sento e seguro-me no banco da frente. O motorista é louco ! Dor de cabeça ! Acho que vou vomitar agora. Não! Respiro, sinto gotas de suor em toda a cara.

O motorista vai acelerando,

Acelerando. Estou sozinho. Muitas avenidas. Pontos lotados, apinhados de gente. De vez em quando ultrapassamos outros ônibus, quase vazios. Mesmo letreiro : “Minha Vida”. Normalmente três pessoas : um motorista, um cobrador, um passageiro.

‘As vezes passamos por outros ônibus, direções, destinos diferentes. Apinhados de gente. Lotados. Gente pendurada por todos os lados.

Passamos também por ônibus parecidos com esse em que estou. O letreiro, o destino marca “Minha Vida”. Vazios, vazios. Cobrador dormindo. Motorista contando histórias sozinho. Que ele fez, que ele desfez, que ele acerta as contas com os outros com as mãos, e, “na hora ! na hora !”.

Quanto mais alto ele fala, mais fico perto de achar que não sobreviverei até o dia de amanhã. Ora, que mentira.

Se a cabeça dói, isso deve ser um sinal de vida.

E, pensando bem,

Ainda prefiro meu ônibus, que anda torto, com um motorista falastrão e um cobrador dorminhoco.

E se eu pegasse o outro ônibus,

cheio de tanta gente, e não saberia em que ponto descer ?

E tanta gente para passar na roleta, e a falta de troco, e … tanta coisa.

Tanta coisa.
O motorista prepara-se para contar mais uma história infame… mais uma !

A cabeça doi. Urgência de respirar ar fresco.

Saltar daqui há pouco. Queria dormir como esse cobrador dorme.

Pelo menos, esse ônibus chama-se “Minha Vida”.

O Último Dia

Acordo assustado. Uma música triste,
Triste, absolutamente triste. Música no ar. Meu coração foi atingido pela ponta de um compasso,
Ouvi as folhas dos galhos altos das árvores da praça balançando de um lado para outro, com o vento.
No outro dia, meu pai tinha chegado,
Seu automóvel Chevrolet dourado, imponente. Cheiro de novo.
As novidades da cidade. Os cartazes na rua, na volta seriam diferentes.
O mundo estaria à minha espera, bem como a segunda feira. Mas por enquanto, era só a música que vinha por entre as árvores,
Música da Igreja chamando seus fiéis.
Eu pretendia gastar a Eternidade,
Correndo na praça, brincando com meus amigos,
Indo comer jabuticaba no pé (tão doces que arrebentavam apenas com um olhar)
Jogando betes no chão quente da rua próxima ao meio dia,
O cheiro pesado da mamona assumindo o ar de que vai chover e nunca chove…
A sirene da concessionária Ford-Willys extremamente pontual, ao meio-dia. Todos os dias.
Todas essas coisas somadas,
iam ser usadas na Eternidade, mas, por enquanto,
as aulas me aguardavam na capital na segunda feira.
“Porque não posso viver aqui para sempre”, eu pergunto, enquanto vou lavar o rosto, escovar os dentes.
Minha tia perguntaria à minha mãe : porque ele não pode ficar aqui com a gente ?
E minha mãe, irritada : “esse menino tem escola !”
Isso bastava. Depois do café, saí, fui à praça.
A música havia parado. O vento soprava por entre as árvores.
Fui andando até a estação ferroviária. Havia uma névoa baixa .
E se eu me perdesse no mato ? Se ficasse eternamente perdido ?
Não precisaria ir embora …

A música havia cessado.
Deitei-me na grama. Daqui há pouco, os adultos estariam bebericando e falando sobre casos, sobre fazendas, sobre mortes.
Lembrei-me do cheiro de asfalto quente misturado com gasolina,
das gotas da chuva quente caindo na paisagem da tarde, da luz
do dia que não quer terminar, mas tem que terminar.
Fechei os olhos e só ouvi o vento, e o silêncio.
Se eu dormisse eternamente, não precisaria voltar. Aí, achei que era um pouco doloroso demais, dormir eternamente.
E nesse momento, escutei uma voz que me chamava :
“Venha almoçar, menino”
Não há outro jeito senão levantar, e seguir a voz que me chama.
No almoço estou quieto, mas algo me faz esquecer que daqui há pouco estaremos em marcha.
Brincadeiras, risadas. Daqui há pouco tudo será esquecido. Os pratos na mesa vazia.
O sol está brilhando, hora das malas, das despedidas.
Minha tia aparece com um pacote, dois grandes sanduíches. “Para você não sentir fome na viagem”.
Mas acabamos de almoçar.
O carro dá a partida. As vozes, quase em uníssono. Vão ficando para trás.
Adeus, adeus. Estou olhando para frente, não quero olhar para trás.
Viramos a direita, em direção da auto estrada.
Agora o carro desce a ladeira, em velocidade : a viagem vai começar.
Imagino uma de minhas tias no banco de trás, comentando : “a cidade cresceu…”
Agora são caminhos quase novos, advinhar
quais serão os cartazes novos exibidos,
os filmes novos,
as manhãs na clausura, professores enfadonhos,
o sol batendo lá fora …
Já estamos chegando. Final de Domingo.
Grandes tristezas. Cidade silenciosa.
Desarrumar as malas. Jantar. Cama. Amanhã, aula.
O motorista acionou os freios e o ônibus reagiu como um animal ferido,
pronto a engolir os poucos passageiros de um ponto escuro, mal-iluminado…
Deitado, esperando o sono.
Triste, triste confirmação, de que aquele,
Aquele havia sido o último dia.

Spindrift

Começava assim : Vulcano, morando dentro do Vulcão. E do Vulcão a fumaça se erguia, leve, tênue, todos os dias. Mas Vulcano às vezes andava raivoso. E quanto mais raivoso, mais a fornalha era alimentada, mais os gritos eram ouvidos para fora do Vulcão. E quando Vulcano gritava, a terra se quebrava em torrões, engolia gente, fazia com que todos, perto ou longe fossem engolidos para dentro do Vulcão. E a fumaça saia, em rolos, de todas as cores próximas do cinza, do vermelho do sangue, do púrpura da consciência, do laranja. E uma cortina espessa começou a se formar e invadir os quatro cantos dos céus. Aves morreram respirando o veneno da fumaça, aviões chocavam-se no ar, a chuva era impedida de cair. Todos nós paramos em casa, o telefone não tocou. Nem o rádio transmitiu vozes ou músicas através das suas ondas, que não conseguiam atravessar a fumaça que saia do Vulcão. Alguma coisa permanece entalada : não sabemos se estamos indo ou estamos voltando. E se estamos voltando, de onde estamos voltando, se sequer sabemos para onde estamos indo ?

Era uma menina, traços delicados, óculos grossos, sobrancelhas decididas. Não era Alice no País das Maravilhas, não tinha o vestido azul, seus cabelos eram compridos e castanhos, não eram louros como os de Alice. Na avenida era impossível enxergar-se alguma coisa, mas o silêncio fez com que tivesse coragem e atravessasse os cruzamentos, sem mesmo saber se o homenzinho da luminária estava parado na luz vermelha, ou se o homenzinho indicava em verde que era hora de andar. A fumaça não impediu que ouvisse o barulho da luz mudando de estado – não importa, nenhum carro poderia passar em alta ou baixa velocidade; então ela atravessou resoluta a rua e não importa a fumaça, teve vontade de girar como se fizesse parte de uma grande valsa, uma grande valsa dentro da fumaça. Mas não perdeu tempo e era impressionante como parecia compreender a lógica fria da alameda descendente, o piso de calçada que se soltava : era como cada pedrinha, cada desvio, cada armadilha disfarçada de cerca ou de planta estivesse decorada, cor e salteado, mas para baixo todo santo ajuda e agora vê-se a garota atravessar resolutamente a rua, e olhar para a esquerda a praça, normalmente cheia de tarados escondidos atrás das árvores, aleijados, mães com seus filhos e cachorros em mútua perseguição. Atravessou a outra rua e foi beirando uma ladeira tortuosa que se encontraria com o túnel que ejeta carros em busca de sinal vermelho em algum ponto infinito.
Com cuidado percebeu que a calçada era um fino fio de pedra sinuoso, e por alguns segundos, teve medo que passasse algum carro em alta velocidade. Inútil, não havia carros, não podiam trafegar. Soltou um suspiro de alívio quando sentiu a calçada da grande avenida debaixo de seus pés ; sentia que estava próxima de casa. Atravessou pela última vez a rua que se apresentava, parou um instante, colocou os livros debaixo do braço direito e com o esquerdo foi tateando, grades de prédios. Pronto, estava em casa, falta de energia nos elevadores, subiu animadamente as escadas que levavam ao seu andar. A porta do apartamento estava aberta, entrou, tudo quieto, e todos os cômodos estavam impregnados de fumaça. A luz de seu quarto estava acesa, a porta estava fechada, não trancada : achou estranho e entrou, e não houve tempo de achar mais estranho: reclinada em sua cama uma menina, traços delicados, sobrancelhas decididas e óculos grossos; apenas uma menina, estranhamente semelhante, estranhamente coincidente, apenas uma menina, lendo um romance.

Para Cristiana, amiga querida

Astronomy Domine

Lime and limpid green, a second scene
A fight between the blue you once knew.
Floating down, the sound resounds
Around the icy waters underground.
Jupiter and Saturn, Oberon, Miranda and Titania.
Neptune, Titan, Stars can frighten.
Lime and limpid green, a second scene
A fight between the blue you once knew.
Floating down, the sound resounds
Around the icy waters underground.
Jupiter and Saturn, Oberon, Miranda and Titania.
Neptune, Titan, Stars can frighten.
Blinding signs flap,
Flicker, flicker, flicker blam. Pow, pow.
Stairway scare, Dan Dare, who’s there?
Lime and limpid green, the sounds around
The icy waters under
Lime and limpid green, the sounds around
The icy waters underground.

Syd Barrett