Simple Words

Lucas, meu filho.

Você pode tentar desistir de mim.
Mas
Eu nunca vou desistir de você.

Por favor,
perdoe-me.

Seu Pai.

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O Primeiro Dia

Manhã. O carro vai passar daqui há pouco.
Fechei os olhos, e vi o carro chegar.
Ford Comet 63, Vermelho. Corpo vermelho, teto pintado de branco. Ouço o ruído silencioso do motor. Senti cheiro de graxa e gasolina.
As duas portas iriam se abrir, minha tia sairia do banco do passageiro.
Vestida como uma artista de cinema de Hollywood. Óculos escuros. Uma grande saia rodada. Uma fita no cabelo. Bolsa de vime. Perfume.
Festa.
Meu tio sairia então de seu lugar de motorista. Sua cara curtida de sol. Seu fino bigode preto. Um cigarro já aceso em suas mãos. Os óculos escuros de aviador.
Festa. As portas abertas da casa para recebê-los.
Sentados no sofá e na poltrona. Histórias, histórias. Almoçaríamos juntos.
Meu tio piscaria o olho : “e então ? sua mala está pronta ?”
Estava. Logo após a sobremesa e o café eu abraçaria meu pai e minha mãe.
Já sentindo toda a saudade do mundo. Durou uns segundos, para ser sincero.
E o Ford Comet 63 vermelho faiscante e de discreto rabo-de-peixe, dirigido pelo tio com óculos de aviador,levantaria vôo para serpentear pela estrada de Santos.
Na estrada vamos vendo as montanhas, os túneis, o verde.
Minha tia diz : abra a boca várias vezes para destampar os ouvidos …
Agora vemos as refinarias, daqui há pouco os navios,
As ruas antigas, o túnel, a avenida da praia. Os trilhos do bonde.
O navio que passa lentamente, e revela o outdoor da geladeira incrustado na montanha.
Estacionamos na garagem do prédio alto de apartamentos pequenos.
As portas, as cortinas, o cheiro é de mar e cheiro de vazio, apartamento que não é aberto há muito tempo.
(Acho que a última vez foi no Verão passado. Pode ser)
Amanhã haverá a areia, o mar, a linha do horizonte.
A água acinzentada, areia amarela ;
“Menino, cuidado com o sol !”. Construções de areia. Guarda-sol. Sorvete.
Praia em dia de semana. Minha tia como uma artista de cinema na praia.
A tarde, devagar. Chuva passageira. Espero que não dure. E que bom, depois de uma meia hora, passou.
Na hora do jantar, meus tios sonham com uma viagem de navio a lugares com nomes esquisitos.
Os braços e o rosto estão vermelhos, os ombros naturalmente ardidos.
“Menino, cuidado com o Sol!”
“Não vá ficar doente !”
“É hora de dormir !”
Colocam-me na parte de baixo de um beliche vazio.
Entre o estrado e o colchão de cima, há folhas de jornal presas entre grades.
Posso ler o anúncio do cinema que chama para ver Agonia e Êxtase ou o Manto Sagrado,
A crônica do jogo sensacional do menino Pelé,
O Rei do Futebol, O Mundo aos seus pés, Os móveis da Pirani.
Posso também ver a cortina pintada com o Mapa-Mundi,
E da janela o reflexo espelhado das tevês no mesmo canal, nas salas escuras, todas o mesmo filme.
Então eu fecho os olhos, penso no Comet 63 e no navio que atravessa o Atlântico,
que leva minha tia vestida de artista de cinema,
e meu tio de óculos ray-ban para o estrangeiro.
O navio sai da doca, ruma lentamente,
Com graça faz as curvas por entre as montanhas,
E quando ele partir na direção da linha do horizonte,
eu sei que finalmente o tempo tinha chegado,
e que aquele era o primeiro dia.

25

Sunrise doesn’t last all morning,
a cloudburst doesn’t last all day
Seems my love is up and has left you with no warning
It’s not always going to be this grey

All things must pass, all things must pass away

Sunset doesn’t last all evening,
a mind can blow those clouds away
After all this my love is up and must be leaving
It has not always been this grey

All things must pass, all things must pass away
All things must pass none of life’s strings can last
So I must be on my way and face another day

Now the darkness only stays at nighttime,
in the morning it will fade away
Daylight is good at arriving at the right time
It’s not always going to be this grey

All things must pass, all things must pass away
All things must pass, all things must pass away

George Harrison, que nasceu em um 25 de Fevereiro

Hoje

Hoje eu tive um sonho
Daqueles que se sonha sem dormir
Sonhei que tinha tudo que tinha ontem
Mas hoje não é ontem….
E ontem foi bom
Mas ainda bem que hoje não é amanhã
Pois amanhã poderei sonhar de novo
E pelo menos nesse sonho
Ter tudo que tinha ontem
Que foi muito bom

Ana Rosa Leão,  grande amiga.
Natal-RN

Julia Dream

Sunlight bright upon my pillow
Lighter than an eiderdown
Will she let the weeping willow
Wind his branches round
Julia dream, dreamboat queen, queen of all my dreams

Every night I turn the light out
Waiting for the velvet bride
Will the scaly armadillo
Find me where I’m hiding

Julia dream, dreamboat queen, queen of all my dreams

Will the misty master break me
Will the key unlock my mind
Will the following footsteps catch me
Am I really dying

Julia dream, dreamboat queen, queen of all my dreams

Syd Barrett, Pink Floyd, cerca 1968

esse post é minha homenagem à Júlia, 9 anos hoje, 02/02/2010.
com todo amor do papai.

Sonho ou Pesadelo

Sonho ou Pesadelo, by Júlia

Sonho ou Pesadelo, by Júlia

Quero que saiba que já aconteceram muitas coisas com todas as pessoas. Entre elas: sonhar. Se você, leitor, estiver azarado, no dia terá um pesadelo. Se estiver nas nuvens vai sonhar, por exemplo, com quem você gosta tipo seu primo,sua mãe e seu irmão caso tenha um. E se você estiver triste terá que ter um sonho que alegre ou que tente alegrar você.

Se sonhar com uma coisa alegre, uma triste, uma relaxante e uma coisa estressante ao mesmo tempo, voce tem que ir a um psicologo por que eu não sei o que voce tem!!!

Se  não lembrar do que sonhou  vai achar que  sonhou com um fundo branco, mas você sonhou mesmo assim.

Se você for uma pessoa muito,muito,muito mesmo azarada é bom que você coma muitos biscoitos da sorte, viu? Se você for uma pessoa sortuda não precisa comer os biscoitos e é otimo que  seja uma pessoa bem sortuda.

Então tente não ser uma pessoa azarada e sim uma pessoa sortuda!!! Para sonhar e não ter pesadelos.

Júlia Corrêa Bulhões, 8, é escritora, poeta, filósofa, fotógrafa, ilustradora ( a ilustração que vai nesse post é dela), artista. E minha filha querida.

Feliz Ano Novo a todos.

Avoriaz

Não sei quem sou. Não sei se me escutam. Não sei se faço barulho ou se podem entender meus pensamentos ou minhas palavras, ou o que entendo o que deva ser.
Tudo o que vejo é uma bonita paisagem.
O sol nasce na minha frente. Quando vai embora, está às minhas costas. Às vezes o tempo é muito lento. Outras vezes sinto apenas a velocidade das nuvens acima de mim.

À minha frente, meninos jogam bola :

– Caiu ! Caiu a bola lá dentro !
– Quem vai pegar ? Quem vai pegar ?

Silenciosamente imagino: venha pegar, venha pegar. Venha logo. Quanto mais tarde, mais escuro. Venha !

Brigas. Brigas. Vá você ! Não, é você quem vai ! Empurrões. Finalmente um menino mais corajoso, faz cara de sério e finalmente decide :

– Eu vou !

Passam-se minutos. Meia hora. Uma hora. Gritam seu nome. Xingam. Fazem troça. Mariquinha, mariquinha. Com o passar do tempo, entreolham-se. Já não fazem o mesmo barulho. Na realidade, fazem silêncio. Outro mais corajoso, anima-se a ir buscá-lo.

– Não vá ! Não vá !

Avança alguns passos, cego pelo contraste entre a luz do sol e o escuro. De repente, muda de idéia, vira as costas para mim, e fala para o grupo:

– Vamos buscar ajuda !

E vão embora, camisetas sujas, pernas,braços e joelhos arranhados. As nuvens passam. O silêncio fica maior.
Às vezes seria possível ouvir o vento conversando, alguns de seus passageiros.
Anoitece. Amanhece de novo. Anoitece de novo. Sol. Sol e noite. De novo e de novo.

Um ônibus, excursão, turistas. Descem todos para aproveitar a paisagem. Homens, mulheres, filhos, filhas. Uma menina de uns dez meses, engatinhando. Tem cabelos claros que refletem o sol, tem olhos cor de azeitona verde, que investigam o mundo. Estendem uma toalha no relvado, comida, bebida, conversas. Ela brinca com as flores, persegue formigas.

Oh, meu adorável bebê. Venha aqui comigo. Deixem vir as crianças. Não as impeçam. Aqui esse lugar é de quem se parece com as crianças (1)
Uma voz inaudível é ouvida, o bebê desaparece na sombra.
Os homens e as mulheres, e suas crianças recolhem suas bagagens. Máquinas fotográficas, sacolas de lanches. O ônibus arranca.

Passam as nuvens. Na sombra, a paisagem ouve o bebê chorar.

Silêncio.

Pelo campo, pela paisagem, o casal corre. De mãos dadas, abraços, beijos. Rolam no chão. Risadas, gargalhadas. Levantam-se. Ela o empurra e começa a correr.

– Morrerias por mim ?

Morreria sim, claro que morreria, eu penso em silêncio.
Não posso rir. Á primeira menção de uma risada, os pássaros eventuais levantariam vôo. E eu seria denunciado.
Apenas observo suas faces afogueadas, o riso, a respiração arfante, hormônios.

Rindo, rindo muito, ela dispara por caminhos invisíveis. Finalmente entra na sombra.

– Venha me pegar !

Ele sorri. E desaparece na sombra.

Quem eu sou ? Não sei quem sou. Não faço a mínima idéia.
À minha frente está a paisagem, acima de mim as nuvens, dentro de mim vozes, sussurros, zunidos.
O tempo irá passar, as noites virão, os dias irão aparecer no horizonte. Companhia mais constante : o silêncio. Acima das nuvens, acima do céu, do sol que nasce à minha frente e morre, trás de mim. Acima das vozes que me povoam, da luz e de sua sombra.

Talvez não seja, talvez exista.

Talvez não me reconheça se um dia pudesse olhar o que imagino minha face refletida em qualquer espelho dágua.

Estou apenas esperando.


 

 

(1) Lucas 18,15-17

Shapes of Things

Shapes of things before my eyes,
Just teach me to despise.
Will time make men more wise?
Here within my lonely frame,
My eyes just hurt my brain.
But will it seem the same?

Come tomorrow, will I be older?
Come tomorrow, may be a soldier.
Come tomorrow, may I be bolder than today?

Now the trees are almost green.
But will they still be seen?
When time and tide have been.
Fall into your passing hands.
Please don’t destroy these lands.
Don’t make them desert sands.

Chorus, Lead.

Soon I hope that I will find,
Thoughts deep within my mind.
That won’t disgrace my kind.

 

(escrito por JimMcCarthy,Keith Relf e Chris Dreja. Yardbirds. 1965)

Quinta-Feira, 7:12 da manhã

Eu vinha vindo
pela rua fria

Trazendo minha filha
pela mão.

A parte
mais triste
de mim

estava dizendo:
presente.

“Cale-se”,
digo em silêncio.

“Por favor,
não se manifeste”,
exijo
em brados
silenciosos.

Minha filha
afrouxa sua mão
ligada à minha,

pois vamos
de mãos dadas.

Percebo então
que a parte
mais triste
de minha filha
também
estava dizendo :

presente.

Senti, sinto,
medo,

muito medo,

como nunca.

 

Quem sabe,
fingir
que nada está acontecendo.

Hora de
atravessar
a
rua.

Memory is Near

O homem preparou-se para o mergulho,
pompa e circunstância,
preto e branco.

E tanto fôlego tomou,
tanta coragem,
esperava um oceano
profundo.

Preparou-se para um salto colossal,

E quando saltou,
a câmera mostra:

Metade do corpo imersa na água,
as pernas para fora,
mexendo, desordenadas, anárquicas,
querendo mergulhar.

A platéia ri,
o piano toca :
cinema mudo.
(outubro,2009)

Agradecimentos : Marcos Nogueira
Música Mental : Memory is Near, Steve Roach